sexta-feira, 3 de abril de 2009

SPOOK - Parte IV

Págs. 34 e 35

"Costumava pensar que as pessoas na Índia acreditavam na reencarnação do mesmo modo que os cristãos acreditam no paraíso: de forma mais ou menos abstracta. A maioria dos cristãos não espera ocupar um lugar numa nuvem após a sua morte, mas acredita na possível existência de um sentido abstracto da vida para além da morte, como um local cujo conforto ou a falta de algo depende do comportamento tido na Terra. Por outras palavras, a crença traduz-se num sentido vago e geral de que há uma recompensa no futuro para aqueles cujo comportamento foi exemplar.

A minha opinião começou a mudar depois de passar uma tarde por entre as páginas de The Ordinances Of Manu, um tomo do código legal baseado nas escrituras Vedas, datado de 500 dC. A legislação inclui tudo, desde a lei criminal, (se um homem da classe mais baixa cuspir para um homem de alta linhagem, "o rei deverá ordenar que os seus lábios sejam cortados; se urinar para cima dele, o seu pénis e se largar gases para cima dele, as suas nádegas"), os códigos de saúde e de higiene ("algo debicado por pássaros, cheirado por uma vaca, espirrado ou contaminado por piolhos, torna-se puro ao atirar-se terra para cima dele") - e contempla, também, a reencarnação.

Na altura de Manu, a reencarnação não era tratada como um princípi religioso abstracto, mas sim como uma consequência legal concreta. (...) No código da testumunha 66 do capítulo XXII, consta: "há mesmo quem se torne um tipo de garça por roubar fogo, uma vespa por roubar um utensílio caseiro; poderá renascer como uma ave de capoeira jivijivaka aquele que rouba tecidos tingidos". Á semelhança destes casos, aquele que roubar seda, linho, algodão, uma vaca ou melaço, reencarna, respectivamente, como perdiz, sapo, maçarico-real, iguana ou um pássaro vagguda. A maior punição kármica fica reservada para aqueles que "desonram o sofá do guru". Não estou muito certa quanto ao verdadeiro significado desta afirmação, mas o meu palpite é que não estamos a falar literalmente de rasgar os estofos do sofá, dado o desgraçado do infractor da lei ser sentenciado a regressar "cem vezes como entranhas de relva, arbustos, videiras, animais que comem carne crua (...). Igualmente insensato é o caso de Brahman, que "abandonou os seus próprios princípios do que é correcto", pelo que deveria reencarnar enquanto "espírito de Ulkamuhka, um comilão de vomitado".

O ponto a que eu queria chegar, quando me distraí inevitavelmente com os julgamentos quixotescos de Manu, é que a reencarnação tem tradicionalmente sido aceite como uma faceta literal, e não alegórica, da vida. Os aldeãos que tenho conhecido esta semana não questionam se os mortos renascem mais do que qualquer um de nós questiona se os mortos se decompõem."

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