sábado, 22 de agosto de 2009

Pecado #1: Gula

Normalmente um excesso tem origem em outro excesso, um desequilíbrio em outro desequilíbrio. Quando alguém come demais, pode muito bem ter passado fome em outra existência. Ou não. A comida é muitas vezes interpretada pela nossa mente como sendo uma protecção, algo que nos dá forças e quando necessitamos de protecção a outros níveis, mesmo que não tenhamos necessidade de nos alimentar mais a nível físico, procuramos muitas vezes suprir essa necessidade, essa carência, comendo, o que nos leva a comer mais, e mais, cada vez mais, pois buscar suprir carências emocionais com base no exterior, é perpetuá-las; podemos sossegar os nossos conflitos a partir do interior, dominando a mente, proporcionando-lhe as respostas de que necessita aos seus conflitos internos. Basta clarear a mente. Creio que, no nosso mundo industrializado se come muito mais do que se necessita verdadeiramente, pois existe muito alimento à disposição e recorre-se a ele como fonte de prazer e bem-estar, quando o nosso déficit interno de felicidade nos leva a procurar no exterior aquilo que deve ser suprido a partir do interior. Come-se mais porque se come por motivos que não se prendem com as necessidades físicas. Há, no entanto, um número imenso de situações que podem originar desequilíbrios a este nível, nomeadamente, o facto de se ter pertencido a uma cultura em que a gordura era incentivada e apreciada, muitas vezes por representar sinal de riqueza. Isto, olhando o significado de forma literal; claro que a "Gula" pode ser interpretada como a atitude de quem não sabe medir os sues limites, de quem não sabe quando parar. Mas a situação de base é mais ou menos a mesma; provavelmente na base de todos os pecados está esse mesmo déficit de felicidade interna.

Contudo, esbarro-me aqui com algo intransponível, por ser subjacente ao tema deste desafio: a noção de pecado. As religiões, nas suas boas intenções, estabelecem como leis da matemática, regras sobre domínios muito mais amplos, como é o caso da natureza humana. O "erro" é inevitável, uma vez que cada ser humano tem uma natureza própria, difícil de ser compreendida pelo próprio, quanto mais por segundos e ainda menos por terceiros. Além disso, num mundo em mudança, não é de bom senso estabelecer leis rígidas e encará-las como imutáveis. Até mesmo comer em demasia pode contribuir para algo positivo, coisa que não vemos se estivermos somente atentos ao seu aspecto descontrolado superficial. As respostas à questão do "certo" e do "errado" devem repousar sobre uma análise detalhada de cada situação, face à qual devemos combinar razão e intuição, e na qual devemos procurar, criativamente, a forma mais positiva possível de responder. E aquilo que desempata quando queremos perceber se estamos a errar ou não tem a ver com a interferência que possa causar na vida alheia. Claro que é muito mais fácil prender-nos a critérios estanques e agir sempre de acordo com eles, mas até para isso é necessário entendimento e flexibilidade , pois os contextos que nos são colocados são sempre diversos, e ser-se coerente é sempre um desafio. Perante esta realidade, acabamos por ser obrigados a ir modificando esses mesmos critérios, por mais estanques que sejam e a ir desenvolvendo a compreensão e a capacidade de análise para que a cada instante nos adaptemos às realidades que vão surgindo. Claro que este processo sugere lentidão e requer tempo, mas é como tudo; a prática leva a perfeição. Assim habituemos o cérebro e este tipo de análise, ele começará aos poucos a fazê-lo cada vez mais rapidamente até se tornar automático, mas devemos voltar sempre ao período de prática.

A minha relação com a gula é a seguinte: ao nível da concepção do senso comum de gula - é provavelmente dos campos da minha vida em que procuro ser mais restritiva, também porque tenho mais facilidade. Não sou nem nunca fui particularmente esfomeada, como o meu pai diz "não vivo para comer, como para viver" (sou parecida com o meu pai em muitas coisas, muitas mesmo). A comida não é um dos meus prazeres. Quando vivia medicada, as medicações aumentavam-me muito o apetite e nessa altura eu soube o que era ter prazer em comer... confesso que era interessante!! Mas à medida que o meu corpo se vai desfazendo dos químicos, naturalmente vou sentindo cada vez menos necessidade de comida. Era interessante sentir prazer com a comida, mas o preço a pagar em retorno era demasiado alto: resultava que eu engordava e sentia-me bloqueada interiormente; sentia que a energia não fluía; sentia-me literalmente pesada, quer fisicamente, quer emocionalmente, quer a outros níveis. Como se a minha mente funcionasse com menos eficácia. Continuo a sentir muito prazer com a comida, aliás, cada vez mais, no entanto, segundo uma lógica diferente: comer cada vez menos aprimora o paladar, tornando os sabores mais intensos e perceptíveis. Assim, consigo apreciar cada vez melhor coisas que outras pessoas consideram ter pouco gosto, mas consigo comer apenas em pouca quantidade comida com sabores muito fortes, coisa que também aprecio, mas que depressa me sacia. Progressivamente, também, tenho sentido menos necessidade de produtos de origem animal. Naturalmente e aos poucos, fui eliminando estes produtos da minha dieta. Não tenciono tornar-me vegetariana; conheço as vantagens do processo: quanto mais consciente a entidade que eliminamos para que nós próprios possamos subsistir, mais "dívidas kármicas" acumulamos, logo é normal que o nosso corpo acumule energia negativa. No entanto, um processo de mudança demasiado brusco poderia levar a uma acumulação ainda maior de energias negativas; por isso mesmo, devemos ouvir o nosso corpo e ir fazendo o que nos pede. Pelo menos eu, no meu caso específico.

Em relação à gula em sentido figurado; o pecado capital de desejar sempre mais e não se contentar com o que se tem - tenho a acrescentar que compreendo o motivo pelo qual é considerado um pecado, mas antes de mais devemos ter piedade para com quem peca: o pecado acaba sempre a voltar-se contra o pecador. É infeliz aquele que vive em estado permanente de desejo desenfreado e se comporta como uma criança mimada que é presenteada sucessivamente pelos pais e não dá valor a nada do que recebe. Assim, se nos contentarmos com as inúmeras pequenas coisas que o dia-a-dia nos oferece, criaremos um estado de contentamento que atrai mais contentamento. Pessoalmente, há pequenas coisas que me fazem profundamente feliz: o mar, nadar, seja no mar, seja no rio, seja na piscina, o barulho das ondas, a Mafalda e as suas traquinices, os meus meninos e as suas traquinices, o meu refúgio decorado a preceito, numa tentativa de reflectir o meu presente, cada momento do meu passado e um pouco do meu futuro, os meus trapos, que procuro conjugar a cada dia de forma diferente, de forma a conseguir efeitos diferentes a cada dia e assim estimular a minha criatividade, a minha escrita e procurar novos caminhos por onde a fazer avançar, a minha música, cantá-la explorar-lhe as letras e os sons, descobrir-lhe os recantos, viver a minha vida ao som dela; deixar que entre dentro do meu corpo e se apodere dos meus movimentos, fluir com a música como se ela e eu fossemos uma só entidade; os meus filmes e o desafio de procurar interpretá-los e analisá-los; os meus livros e o desafio de deixar que me façam crescer... as pessoas de quem gosto, as brincadeiras, as saídas, as loucuras que se fazem e dizem, mesmo que ao redor hajam olhares depreciativos de quem leva a sua vida amargurado (a) e não compreenda, e sinta que não são atitudes dignas de gente que já passou da idade das brincadeiras. Um simples jogo de vídeo que parece abrir-me pelo menos a porta para que um dia venha a conseguir tocar guitarra - não o meu objectivo supremo em termos musicais; trata-se de um simpático degrau na longa caminhada que compreender as estranhas da música e dominar-lhe os caprichos. Extrair música de um objecto é das artes mais sublimes, arte que já tentei dominar, mas acontece sempre algo aos meus presumíveis professores de guitarra, que acabo sempre com ela na mão e entregue a mim mesma. É, contudo, algo por que penso valer a pena lutar. A minha permanência dentro de casa, não é dolorosa como no caso de muitas pessoas que conheço; se puder sair, pois certamente sairei, não com qualquer pessoa, pois tenho tanto que fazer em casa para me aprimorar a mim própria nos mais diversos campos, que não posso desperdiçar o meu tempo, utilizando-o para conversas fúteis que não levam a lado nenhum. Existem provavelmente, basicamente, apenas dois tipos de pessoas com quem acho correcto utilizar o meu tempo: aquelas com quem eu gosto de estar e/ou aquelas que sinto que de alguma forma precisam de mim para alguma coisa que eu entenda ser-lhes devida. E em tudo isto se vão encontrando pequenas felicidades (e eu tenho tantos mtivos para ser feliz; não pelo que possua materialmente, mas pela forma de encarar a vida que conquistei), que reconhecidas, geram sentimentos positivos de gratidão ao Universo, que nos diz: "dei-te um presente, ficaste grata, reconheceste, logo, mereces mais" e em breve a estas pequenas coisas vão-se juntando outras maiores: pessoas cada vez mais significativas, e experiências cada vez mais enriquecedoras.

No que diz respeito a fome de viver, de facto, a uma primeira vista posso parecer uma gulosa esfomeada. Mas possuo um travão interno que me diz a cada instante que terei aquilo de que estou pronta a usufruir a cada momento. Assim, embora deseje muito da vida, aguardo tranquilamente, pois sinto que a cada instante dou e/ou recebo o máximo que posso dar e receber. Não sou gulosa, pois não me deslumbro com o que a vida me trás; trabalhei para isso, quando recebo sei que é merecido, logo tendo a não perder facilmente aquilo que conquistei. Dou sempre valor a cada pequena coisa e sei agradecer até mesmo essa postura, que considero uma bênção. Cresci assim, mergulhada nesta alegria e um dia perdi-a, sem eu mesma perceber muito bem porquê. Há pouco tempo reavi essa mesma postura, essa mesma alegria e estou muito grata por poder viver assim num estado de plenitude relativamente alargado, tendo pelo menos em atenção a realidade dos meus últimos 15/20 anos. Estou longe de alcançar algum cume, mas sei que para lá caminho e isso deixa-me tranquila e feliz, e segura quanto às dificuldades que possa encontrar pelo caminho. Sinto-me cada vez mais próxima daquilo que um dia foi a minha realidade, mas que, durante anos a fio, passou a pertencer apenas ao domínio do sonho: este bem-estar, esta plenitude interior, este amor que progressivamente tenho sentido cada vez mais nos últimos tempos, e que pareço ir emanando cada vez com mais vigor, formando uma nuvem que parece ela própria querer espalhar-se ao meu redor. Que o meu interior se encha de amor progressivamente... e que aos contextos circundantes suceda o mesmo. Que eu encontre os contextos adequados, bons condutores desta energia que começa agora a circular no meu interior.

Coming next: Virtude#1 - aquela que compensa a gula - a temperança.

4 comentários:

  1. Minha querida,

    Como sempre,gosto de ler aquilo que escreves e como não podia deixar de ser,li com toda a tenção o que escreves-te.E admirei teu ponto de vista sobre o pecado da Gula.
    Interessante teu ponto de vista sobre o assunto.
    Por vezes cometemos esse pecado,sem dár-mos conta,achando que não o cometemos.
    Mas se assim não fosse não seriamos nós fruto do pecado!
    Espero ansiosa pelo resto que vou acompanhar com interesse.

    Bj cheio de luar

    ResponderEliminar
  2. Gula que definiçao abrangente que pode ser aplicada ao mais variado conjunto de situaçoes ou não, mas que o cometemos sob diversas formas sem termos noçao de que é um pecado - gula.
    Mas se usarmos um pouco de temperança ela pode ser disfarçada.

    Gostei beijocas AMIGA. :)

    ResponderEliminar
  3. Moonlight: sermos fruto do pecado ou não depende do ponto de vista, da pessoa e da situação em questão.

    Beijinhos!

    ResponderEliminar
  4. Tormenta: hummm... não convém disfarçar... ;) Convém resolver; convém até mesmo evitar a gula, através de uma prática constante, e da vigilância das atitudes. Quando não o conseguimos evitar, há que procurar, com humildade e sabedoria, rectificar a situação, equilibrá-la. Creio que nos fica sempre bem reconhecer os momentos em que não fomos capazes de fazer melhor, sobretudo se foi isso que tentámos fazer: o melhor. Assim não precisamos disfarçar; é libertador assumir os nossos próprios actos... e revelador de uma grande coragem; além disso, leva a que os demais tenham mais confiança em nós. A humildade é algo de extremamente belo... :)

    Beijos, linda

    ResponderEliminar