quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A verdade e a mentira


"Liars when they speak the truth are not believed."
Aristotle (384 BC - 322 BC), from Diogenes Laertius, Lives of Eminent Philosophers

Este é um dos motivos pelos quais não devemos brincar com a mentira. Ela é necessária, claro que é necessária; tudo o que existe neste mundo, existe por algum motivo e há certamente forma de o aproveitar positivamente; normalmente quando tiramos bom proveito de algo negativo e o colocamos a serviço de algo positivo, o resultado é que minimizamos o negativo, ao contrário do que possamos supor. Mas questiono-me agora; se vivemos num mundo se ilusões, então tudo isto em que vivemos inseridos, não é uma grande mentira? Uma alucinação colectiva? Que mal faz mais uma mentira? Na verdade, no geral, não faz mal nenhum. Nós e as nossas limitações, assim como a nossa visão fragmentada do real, devidos a utilizarmos uma parte consciente muito pequena, faz-nos dar uma visão constantemente fragmentada do real, por mais verdadeiros que tentemos ser; uma visão que não corresponde à Verdade. Logo, de facto, uma mentira não faz grande diferença. No entanto, mentir significa afastar-nos da Verdade, da energia, do Amor. A mentira só por si não teria problema se não levasse a uma fuga da Verdade, se não abrisse portas a um caminho contrário do da consciência. Leva-nos, em primeiro lugar, a caminhar longe de nós mesmos. Leva-nos à inconsciência a nosso próprio respeito. A mentira deve ser, portanto, evitada, e utilizada apenas em última análise. Claro que por vezes não temos alternativa. Poderemos ter de mentir para não magoar alguém, mas se tivermos sensibilidade conseguimos perceber se é mais importante para essa pessoa saber a verdade ou não. Talvez noutra altura, talvez noutro contexto, talvez nunca contemos a verdade; mas a primeira coisa a ter em conta aquando das nossas decisões são os sentimentos alheios; e uma boa compreensão dos sentimentos alheios implica necessariamente uma boa compreensão dos nossos próprios sentimentos. Há pessoas, como eu, que preferem a verdade acima de tudo, independentemente da dor que possa causar, sendo a mais cruel das verdades preferível para mim à mentira, que tomo como um insulto à minha inteligência e à minha honestidade.

Convivi na minha infância com uma amiga mentirosa compulsiva. Passou a infância toda a mentir, e embora me tenha afastado dela, apesar de 20 anos de convivência, sei que continua hoje a mentir. De alguma forma é feliz à sua própria maneira, cria cenários e vive-os como se fossem reais, ela realmente acredita que aquilo que diz é verdade e vive em sonhos as realidades que ela própria cria, com uma tal convicção que engana todos ao seu redor. Menos a mim, que 20 anos foram o que me bastou para perceber a doença daquela pessoa que, contudo, não posso forçar a tratar-se; o máximo que pude fazer, foi, de facto, afastar-me. Bem, na verdade, não me afastei; é que além de mentirosa, esta minha amiga era também profundamente invejosa e quando a minha vida deu uma reviravolta, para ela foi simplesmente insuportável ver a sua amiga deprimida feliz e acabou por se afastar. Eu, contudo, como sempre e como considero ser minha obrigação, continuo aqui, de facto, vigiando-a de longe, mantendo-me minimamente informada, para o caso de ela vir a necessitar de alguma coisa. Que acho que virá a necessitar um dia, é uma intuição. Ela sabe perfeitamente que de todas as pessoas no mundo, a única minimamente capaz de a compreender devo ser eu. Ela até já se esbarrou na sua alma gémea, (alguém exactamente como ela) mas afastaram-se, porque ambos não se compreendem a si próprios, logo são incapazes de compreender o outro. Creio que aos poucos se tem vindo a enredar nesta teia de mentiras e por acreditar nos seus próprios cenários, coíbe-se de criar outros mais verdadeiros, com realidade material... é uma necessidade que todos temos. a de ver as coisas materializadas... creio que ela não construirá grande coisa segundo este sistema, ela não tem nada, nem amigos consegue ter, pois quem se aproxima mais acaba por descobrir-lhe a careca... acredito que um dia, quando não tiver forças para construir seja o que for, olhará ao seu redor e verá que não tem nada. E aperceber-se-á de que a sua felicidade até aqui sempre foi vazia. Se isso de facto acontecer, como creio que seria até o melhor para ela, sei que a primeira pessoa a quem procurará serei eu. Mas antes disso não acredito que se queira aproximar, pelo menos por bons motivos... ela sabe que agora as coisas ao meu redor funcionam de outra maneira e sabe que eu já não toleraria certas coisas...

A mentira cria barreiras, obstáculos, nós de energia, que impedem o fluxo de se fazer da melhor maneira. A mentira precisa deter uma muito boa intenção por trás para escapar a esta realidade. Uma intenção de amor incondicional, de consciência profunda, daquela que começa sempre em nós mesmos.

2 comentários:

  1. :) As dúvidas às vezes são saudáveis... outras vezes nem tanto... :)

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