domingo, 6 de setembro de 2009

Kun Long


O "pecado" tem a ver não com a acção que é praticada, mas com quem a pratica; como dizem os budistas, com o "kun long" de quem a pratica. Esta é uma expressão utilizada para designar o estado da alma de alguém. Lembro-me de ler um livro do Dalai Lama em que ele referia a dificuldade em traduzir essa expressão para inglês ou qualquer língua ocidental, uma vez que não existe nenhuma expressão equivalente. Nem culturalmente, nem em termos de religião, olhamos a alma como algo que pode ser trabalhado e melhorado, como algo cujo estado mereça ser avaliado. A qualidade de uma acção depende, precisamente, do "kun long" da pessoa que o pratica e não da acção em si, isoladamente.

A qualidade de uma acção, depende do estado da alma de uma pessoa; tal como eu explico no post, se a minha alma estiver trabalhada no sentido do amor e da compaixão, então uma acção potencialmente negativa, como a mentira, por exemplo, pode vir a ter um resultado positivo; assim como a honestidade, praticada por uma alma cujo "kun long" é negativo, pode dar um mau resultado. Claro que as coisas não são tão simples como isto; o estado da alma de uma pessoa depende de um número enorme de variáveis e avaliar se o resultado de uma acção é negativo ou positivo pode não ser possível a curto prazo.

Pesquisei um pouco e encontrei um blog onde falam precisamente do livro onde aprendi este termo, que jamais esqueci. Ao que parece, quem escreve este post neste blog é alguém cuja expressão revolucionou tanto a percepção das coisas quanto a mim, pelo entusiasmo que parece revelar. De facto, levar esta expressão em conta no nosso entendimento do mundo, pelo menos a mim, ajuda-me bastante. Passo a transcrever alguns trechos mais interessantes do post onde, por sua vez, é também transcrito o trecho do livro que fala dessa mesma expressão: "Leio "Uma ética para o novo milênio", escrito pelo Dalai-Lama. Logo nas primeiras páginas me delicio com os ensinamentos do Mestre quando ele aborda a expressão tibetana kun long. Penso então em compartilhar tal conhecimento com as pessoas, antes mesmo de prosseguir a leitura da obra. Tenho o hábito de extrair de minhas leituras textos que me levam à reflexão e a mudanças. São textos dessa natureza que alicerçam este blog.

Há em mim o desejo de levar o outro à introspecção, a rever comportamentos indesejáveis e aprender a cultivar um estado de espírito sempre positivo, tentando ser o mais útil possível aos outros. Ao criar o seu universo com base no entendimento e na tolerância, o homem é capaz de experimentar a paz. Vejamos com atenção o que o Dalai-Lama ensina em termos de transformar nossos corações e mentes para nos tornarmos pessoas melhores. Vamos imaginar uma situação em que nos envolvemos em um desentendimento com um membro de nossa família. A maneira como lidamos com a atmosfera pesada que se instala vai depender em grande parte daquilo que inspira nossas ações no momento – em outras palavras, nosso kun long. Quanto menos calmos ficarmos, maior a probabilidade de reagirmos negativamente, com palavras ásperas, de dizermos ou fazermos coisas de que mais tarde nos arrependeremos amargamente, mesmo que os nossos sentimentos de afeto por aquela pessoa sejam profundos. Em tibetano, a expressão que caracteriza o que é mais importante para determinar o valor ético de uma ação é o kun long do indivíduo. (...) kun long é compreendido como aquilo que, de certo modo, motiva ou inspira nossas ações – tanto as que praticamos deliberadamente como as que são involuntárias. Logo, essa expressão indica o estado geral do coração e da mente do indivíduo. Quando esse estado é sadio, deduz-se que nossas ações serão (eticamente) sadias. (...) Imaginemos ainda uma situação em que incomodamos alguém ligeiramente, como, por exemplo, esbarrar sem querer em uma pessoa na rua e ela gritar que devemos andar com mais cuidado. Há uma possibilidade maior de não darmos importância a isso se nossa disposição (kun long) for sadia, se nossos corações estiverem plenos de compaixão – um sentimento que encerra compreensão e ternura -, do que se estivermos sob a influência de emoções negativas. Quando a força motivadora de nossas ações é sadia, nossos atos tendem automaticamente a contribuir para o bem-estar dos outros. São, portanto, forçosamente éticos. E quando isso se torna o nosso estado habitual, a probabilidade de reagirmos mal quando provocados é menor. Se perdermos a paciência, será uma explosão desprovida de qualquer traço de rancor ou ódio."

Continuando a transcrever a opinião do autor do post: "Portanto, na opinião do Dalai-Lama, o objetivo da prática espiritual e, consequentemente, da prática da ética é transformar e aperfeiçoar o kun long. É assim que nos tornamos pessoas melhores."Descobrimos que, à medida que conseguimos transformar nossos corações e mentes cultivando qualidades espirituais, passamos a ser mais capazes de lidar com as adversidades e aumentamos as probabilidades de nossas ações serem eticamente sadias", diz o Dalai-Lama. Assim, ele prossegue, se permitirem citar meu próprio caso como exemplo, essa maneira de compreender a ética significa que, ao procurar sempre cultivar um estado de espírito positivo ou sadio, tento ser o mais útil possível aos outros. O Dalai-Lama revela que é mais fácil compreender que o estado geral do coração e da mente – ou motivação – de uma pessoa no momento de uma ação é, em geral, a chave para determinar a qualidade ética dessa ação se considerarmos como nossas ações são afetadas quando estamos sob o poder de fortes emoções e pensamentos negativos, como o ódio e a raiva. Nesse momento, diz o Mestre, nossa mente e nosso coração estão conturbados, o que nos faz não só perder o senso de percepção e perspectiva como também não enxergar o provável impacto de nossas ações sobre os outros. "Podemos chegar a ficar aturdidos a ponto de ignorar os outros e seu direito à felicidade. Em tais circunstâncias, nossas ações – isto, nossos atos, palavras, pensamentos, omissões e desejos – serão certamente nocivas à felicidade dos outros, não importando quais tenham sido nossas intenções para com os outros ou se nossas ações foram intencionais ou não", considera o Dalai-Lama." Pesquisei aqui.

Inspirado aqui.

4 comentários:

  1. This Me: que bom, fantástico para ti! :)E para mim também! :D

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  2. realmente eu tive a mesma sensação após ler o nicio do livro, sinto como se pudesse controlar minhas emoçoes como nunca


    "então uma acção potencialmente negativa, como a mentira, por exemplo, pode vir a ter um resultado positivo; assim como a honestidade, praticada por uma alma cujo "kun long" é negativo, pode dar um mau resultado."

    cuidado, não é bem isso que o velho disse

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  3. Victor!! A mentira certa na altura certa pode ser importantissima! E a honestidade, se mal ponderada, pode ter efeitos desastrosos!

    O que deve determinar da qualidade de uma acção é a capacidade de ponderação sobre essa mesma acção. Quando mais dados levarmos em conta, tanto melhor. E também é importante sabermos estabelecer prioridades. Isso requer treino; treino de pensamento. Meditar é uma excelente forma de activar esse processo e aprofundá-lo cada vez mais.

    Eu não disse que o Dalai Lama tinha dito isso... :) Se é que te estás a referir a ele quando falas em velho...

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