sábado, 3 de outubro de 2009

Virtude # 2 - Disciplina



Disciplina... ora eis uma virtude que há muito persigo e que há pouco consegui encontrar um pouco mais, mas ainda longe da que gostaria de ter! Sim, porque a disciplina liberta-nos; ajuda-nos a manter sob controlo os nossos contextos habituais, obrigando-nos a despender menos energia com eles e fazendo com que mais energia fique liberta para actividades que nos exijam maior flexibilidade ou poder de adaptação. Se por acaso a disciplina, ao invés de nos libertar nos aprisiona e bloqueia, então certamente não estaremos na presença da dita virtude, mas certamente de um "pecado" qualquer, entenda-se por "pecado" uma fase intermediaria entre a que nos encontramos e o ideal que perseguimos (repare-se como é muito mais provável encontrarmo-nos em "pecado" permanente eheheh; a melhor maneira de dissolver estes estádios, enfim, torná-los virtuosos, é manter o ideal em mente, e saber reconhecer, com humildade, que nos encontramos a caminho, demonstrando conhecimento acerca do ponto de chegada).

Disciplina diz também respeito a regras... muitas vezes regras que nos são impostas do exterior; sim porque ninguém valoriza as que são impostas do interior, nem são consideradas disciplina, são vistas quase como caprichos. Como se valessem menos. Mas falarei um pouco acerca da regra na sua acepção mais clássica, a minha tão odiada e que, por mim, seria rapidamente banida do planeta, regra imposta do exterior, aquela que desresponsabiliza, aquela que nos leva no caminho da inconsciência, da estupidez e da cegueira.

Devo, no entanto, reconhecer a estas regras um importante papel regulador da acção descontrolada da mente inconsciente humana. Porque a inconsciência é, de facto, algo perigoso, seja lá o que isso do perigoso for - talvez a invasão da liberdade e do direito alheio. Infelizmente, a nossa compreensão acerca de nós mesmos é parca e não nos deixa perceber o suficiente acerca dos outros para respeitarmos a sua liberdade e os seus direitos - é preciso as coisas virem do exterior para ficarem mais claras. Mas regras são generalizações e toda e qualquer generalização cai sempre na superficialidade, na não contemplação das diferenças, dos casos excepcionais, das minorias, isto para já não falar dos abusos de poder daqueles que o detêm em relação à elaboração de regras e que são movidos por motivações egoístas ou simplesmente não detêm a consciência suficiente para determinar sobre contextos que tantas vezes fazedores de regras desconhecem.

Eu diria, no entanto, que a generalidade das regras aceites pela mente humana como relativamente válidas acabam por ser boas regras, essenciais à sobrevivência, subsistência, enfim, aquela condição à qual nascemos acoplados pela necessidade, mas da qual nos devemos libertar o mais rapidamente possível. Sem regras provavelmente não conseguiríamos sobreviver; até os animais, as plantas, as rochas, o mar, têm regras. As regras são daquelas coisas básicas necessárias... daquelas que, quanto a mim, viemos, precisamente, ao mundo para podermos dispensar ao máximo... mas antes de as dispensarmos, é necessária a sua compreensão, é necessário que sejam totalmente esmiuçadas pela nossa consciência, desmembradas, compreendidas em todos os seus ângulos. E eis o momento em que estamos prontos para as transcender, enfim, transgredir, sem que isso constitua uma transgressão, mas sim um acto de inteligência e uma demonstração de independência de pensamento. Sem que a quebra da regra seja um "pecado", ou seja, algo passível de ser penalizado, e sim o oposto, algo passível de ser recompensado.

Como sabermos se uma regra é boa se jamais a colocámos em prática? Claro que poderemos ter mais ou menos a percepção do caminho onde nos levará por capacidade de antecipação das consequências de determinada situação; e essa capacidade é, de facto, preciosa; revela também uma capacidade de análise relativamente vasta no que às varáveis que influenciam as situações da nossa vida diz respeito o que, por sua vez, revela auto-conhecimento, aquilo onde eu acho que tudo deve começar, onde eu acho que tudo se deve basear. No entanto, e dependendo do poder da regra - ou seja da quantidade de energia despendida para produzir essa mesma regra - devemos começar por conhecê-la e respeitá-la, assim como o devemos fazer a tudo o que existe. Compreendê-la, diluí-la com a nossa consciência, transformá-la para que dela nada reste. Temos, portanto, antes de tudo, que nos entregar a ela, aceitando-a. A aceitação de regras pode ser um bom e um mau sinal. Pode ser sinal de uma alma flexível e consciente, com capacidade de compreensão das coisas e por isso da sua aceitação, mas pode ser também sinal de uma alma pobre que aceita acriticamente aquilo que lhe é dado sem retirar disso qualquer proveito.
A minha relação com a disciplina sempre foi extremamente conflituosa. Sempre tive facilidade em incorporar certas regras, em agir de acordo com elas, mas ao mesmo tempo acabava a sentir isso como uma repressão de mim mesma. Tinha facilidade inicialmente, mas depois acabava a sentir-me mal. Felizmente, trabalhar a nossa consciência permite-nos obter uma mente mais fluída, que como as partículas de um líquido, se adapta melhor à quinas aguçadas dos obstáculos que a vida deseja colocar-nos à frente. E por adaptação, não se entenda subjugação; entenda-se, sim, uma reinterpretação feita de forma tão subtil, que ao meu redor acabo por conseguir fugir a certas normas e a conseguir fazer as coisas à minha maneira, ainda que a certos olhos mais densos, ligados a mentes mais obstruídas, possam parecer metodologias pouco ortodoxas. Não é a fuga, no entanto, a minha missão neste planeta: é mostrar a importância da compreensão prévia da diferença, da aceitação da diversidade, é colocar aos que me rodeiam questões de que andam esquecidos. Se tenho autoridade moral para o fazer? Creio que sim, creio tê-la conquistado com humildade e creio que esta minha missão continua a ser realizada de forma suave e sempre que a flecha necessita ser lançada, vai mergulhada em mel. Sei ser perita nisso, quando quero, é claro. Neste momento, portanto, as restrições que me impõem começam a ser cada vez mais a matéria-prima com que trabalho para tentar modificar e alargar a realidade em que me encontro - sei que um dia colherei os frutos desse nem sempre fácil trabalho, pois é difícil trabalhar com coisas densas e pesadas, com frequência caem-nos em cima e magoam-nos, não nos deixando remédio se não recolher-nos à nossa insignificância... mas para tudo existe uma segunda oportunidade e uma situação que causa insatisfação seja de que parte for, é uma situação inacabada.
Por outro lado, a disciplina começa também a ser cada vez mais algo que me liberta e algo que me leva a conseguir resultados pelo trabalho e pela organização, ao invés de ser algo que me culpabiliza por não ter conseguido cumprir as metas que deveria. Aprendi que, na base da disciplina está a auto-estima e a auto-confiança; se não conseguimos agora, certamente conseguiremos mais adiante. E neste processo de melhoria pessoal, a culpa em nada ajuda. Para que o processo de mlhoria pessoal se dê é necessário, basicamente, valorizar os nossos sucessos, ainda que pareça que isso nos faz estagnar... e aqui só posso falar de mim mesma, mas creio ser extensível a toda a gente que a evolução da que é sustentada, não da que desmorona e deixa lacunas, é feita com base nos sucessos. Por isso tenho um caderno onde aponto tudo o que de bom me aconteceu, por isso quando medito procuro vislumbrar as evoluções que eu mesma realizei.

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