sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amit Goswami - A Física da Alma, O Livro Tibetano dos Mortos está certo, cabe a nós comprová-lo!

"De todos os livros dos mortos, o Livro Tibetano dos Mortos é notável como um retrato da vida e da morte humanas, formando um continuum de experiências de aprendizado. Neste retrato, há passagens que os tibetanos chamam de bardos e que conduzem a pessoa a estados da vida, enquanto outras correspondem a portais para estados do pós-morte. Este modelo vê a vida e a morte como uma série contínua de transições ("há morte na vida, há vida na morte"). Havia uma história em quadrinhos, nos jornais, chamada B.C., na qual uma quiromante, analisando a palma da mão de um cliente, exclamou: "Espantoso! Nunca vi uma linha da vida que formasse um círculo completo!" E o cliente respondeu: "Acredito em reencarnação". Ele também poderia ter dito: "Acredito no Livro Tibetano dos Mortos".

Antes de entrarmos na descrição dos bardos, seria útil falar um pouco da metafísica budista. Na verdade, a metafísica é a mesma do idealismo monista, sobre a qual já falamos, mas com nomes diferentes. Assim, a consciência como base da existência é chamada, no budismo, de dharmakaya; o reino transcendente dos arquétipos é chamado de sambhogakaya; finalmente, o reino manifestado da experiência, de nirmanakaya. O primeiro bardo é o nascimento; o segundo é a existência, entre a infância e a vida adulta, até o instante antes da morte, que é o terceiro bardo. No quarto bardo, principia-se a jornada pela morte; é o início de uma série de oportunidades para a alma (o "si-mesmo" sobrevivente) que sai do corpo. No quarto bardo, a clara luz de consciência pura (dharmakaya) aparece. Se a alma percebe a clara luz, liberta-se da roda do carma e não precisa mais reencarnar. O quinto bardo da morte estabelece um paralelo com o segundo bardo da vida; nele, a alma encontra primeiro os deuses pacíficos e, depois, os deuses irados — demônios ou asuras - que são formas do mundo arquetípico (sambhogakaya). A clara luz agora fica embaçada, e a percepção não leva
mais à libertação total da roda cármica do samsara (mundo manifestado), mas a um caminho nirvânico que conduz à libertação, na forma (não material) do sambhogakaya; deixar de perceber a luz leva ao sexto bardo, o caminho do samsara. O sexto bardo é o da reencarnação; o espírito perdeu as oportunidades que lhe foram dadas para se identificar com a consciência pura ou o mundo arquetípico transcendental de sambhogakaya. Tudo o que lhe resta é o caminho material do renascimento.


Dependendo do carma, ele agora renasce em um de seis lokas (lugares), que incluem o Céu, o Inferno e a Terra, até que sua dívida cármica seja paga ou seus créditos se acumulem.

Por coincidência, a descrição da transição pós-morte dos dois últimos bardos é bem parecida com a do hinduísmo, no qual as duas possibilidades do quinto bardo são chamadas de devayana, o caminho que leva aos deuses (retratado como uma estrada que leva ao Céu), e pitriyana, o caminho que leva ao Pai (retratado como uma estrada que se curva como um arco na direção da Terra).

Naturalmente, cresci ouvindo essas idéias, embora no contexto hindu, tendo encontrado o Livro Tibetano dos Mortos em uma época bem mais tardia da vida. Essas descrições pitorescas sempre provocaram reações negativas em meu eu científico e racional, mesmo quando jovem. A própria imagem dualista de uma alma sem um corpo vagando (onde?) por diversos caminhos de lugar algum não fazia sentido para mim. O fato de que alguém só poderia comprovar essas experiências caso encontrasse quem voltasse da morte para a vida causava ainda mais desconforto.

É interessante observar que a ciência moderna tem um conceito chamado de "buraco negro" — estado de uma estrela gigantesca que entrou em colapso sob sua própria gravidade, deixando no espaço um buraco singular —, que tem um "horizonte", além do qual tudo pode cair e nada consegue escapar. Assim, não é possível alguém voltar de um buraco negro para nos dizer como é lá dentro, mas tampouco é verdade que não possamos saber o que acontece com alguma coisa dentro desse horizonte. Sabemos disso porque temos uma teoria muito confiável, a teoria geral da relatividade, de Einstein, para nos informar.

Menciono tal aspecto porque o poder da teoria costuma ser subestimado em nossa cultura, mas, na moderna física teórica, "coisas" que não podemos constatar diretamente dão-nos previsões confiáveis, e sobre estas são elaboradas tecnologias bem-sucedidas. (É possível ver isto no caso da mecânica quântica: a idéia teórica de ondas transcendentais de possibilidade levou à tecnologia dos transistores.) Damos credibilidade também a essas teorias porque foram descobertas por meio de nossa criatividade."

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