sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amit Goswami - A Física da Alma, Reencarnação

"A imagem da alma que sobrevive no Céu ou no Inferno, após a morte, é mais ou menos a imagem apregoada pelas culturas judaico-cristãs. Outras culturas apresentam-na com diferenças. Às vezes — no Islã, por exemplo — as diferenças são pequenas. Outras tantas, porém, as divergências quanto à realidade pós-morte são radicais. Os hindus da Índia, os budistas do Tibete e de outras regiões (embora o conceito de alma no budismo seja bastante sutil), e muitos povos da China e do Japão, mesmo não sendo adeptos do budismo, acreditam em alma, céu e inferno, mas, para eles, a passagem pelo Céu ou pelo Inferno é apenas o começo da viagem. Céu e Inferno, nessas culturas, são residências temporárias, após o que a alma deve retornar à Terra. O tempo de permanência no Céu ou Inferno, que é transitório, depende do carma de cada um, um conceito de causa e efeito que compreende um registro de boas e más ações, mas com uma grande diferença.

Fazer o bem gera um saldo de carma positivo, e más ações aumentam o carma negativo em seu registro cármico — assim como no cristianismo. O carma negativo não é bem-vindo, obviamente; muitos chineses, por exemplo, supõem que, se suas ações terrenas forem realmente ruins, eles poderão voltar como ratos ou, até, como minhocas na próxima vida. Entretanto, mesmo o carma positivo não impede a roda de girar. Por maior que seja o saldo de carma positivo de cada um, a pessoa não pode permanecer para sempre na perfeição celestial; ela acaba voltando à imperfeição material. Deste modo, entra em jogo a sutil idéia de que nem o carma positivo é suficientemente bom.

Mesmo assim, todos se mantêm atados à roda do carma, o ciclo de reencarnações recorrentes. E diz-se que a roda cármica é o que conduz ao veículo do sofrimento.

O que pode ser melhor para o homem do que acumular carma positivo, fazendo o bem em todas as suas ações e experiências terrenas? Os conceitos hindu e budista dizem que existe um modo supremo e perfeito de viver, cuja descoberta nos retira da roda do carma. Os hindus dão-lhe o nome de moksha, que significa, literalmente, "libertação"; os budistas chamam-no de nirvana, traduzido, também de forma literal, como a extinção da chama do desejo.

Podemos usar a filosofia para explicar as diferenças entre os pontos de vista judaico-cristão e hindu/budista sobre aquilo que acontece após a morte. Em uma filosofia, o modelo específico de realidade pós-morte desenvolvido por uma cultura depende da condição material dessa cultura, se rica ou pobre. O propósito da religião é levar os indivíduos a viverem conforme o bem, e não segundo o mal. Se a cultura é materialmente pobre, as pessoas vivem na esperança de desfrutar uma vida boa após a morte. Se conhecessem a reencarnação, não hesitariam em ser más, de vez em quando, correndo o risco de um Inferno transitório. Haveria sempre uma próxima vida para serem boas.

Por isso, a idéia de um Inferno eterno é importante, pois mantém os fiéis na linha; já conhecem o Inferno, não o desejam para a eternidade. Nas sociedades ricas, por outro lado, o conceito de reencarnação pode ser revelado. Nas sociedades ricas, as pessoas vivem segundo um sistema de classes, no qual a maioria pertence a uma classe média. Se o indivíduo advém da classe média, então o pior que lhe pode acontecer é tornar-se pobre. Nesse caso, a ameaça da reencarnação funciona, pois o carma negativo não só acarreta o Inferno como também gera uma forma de vida inferior (uma classe inferior à atual, por exemplo) na encarnação seguinte. Foi o que aconteceu no sistema de castas hindu da antiga e opulenta Índia, onde floresceu o conceito de reencarnação. Hoje, as coisas na Índia estão mudando; a maioria das pessoas é pobre, e a idéia de reencarnação não é mais tão popular. Por outro lado, as sociedades ocidentais, com sua crescente riqueza, têm se tornado mais estratificadas. Não é à toa que a idéia de reencarnação tem conquistado espaço nessas sociedades.

Faz sentido."

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