sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amit Goswami - A Física da Alma, Reencarnação

"Em Pós-Morte 100, aprendem-se os conceitos básicos, Deus, bem e mal, alma, céu e inferno. Em Pós-Morte 300, estudam-se a reencarnação, a roda do carma. Nesse estágio, são feitas perguntas que não teriam ocorrido no curso básico. Se existe vida após a morte, por que não vida
antes da vida? Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? E a melhor de todas: como um Deus verdadeiramente justo e benevolente não dá a todos a boa vida no Céu?

Comparada a esses cursos, a idéia da libertação deve ser ministrada no nível 500. Só se entra nele após ter-se lidado com um monte de "carma-cola".
Passa-se para ele quando se fazem perguntas sobre a própria natureza da realidade e a relação do indivíduo com ela; quando se intui que o homem, o mundo e Deus não são separados e independentes um do outro. Alcança-se esse nível quando todo o mundo de seres sencientes torna-se uma família, e cada um deseja servir sua família de novas maneiras.

O filósofo Michael Grosso chamou o recente reaquecimento do interesse pela reencarnação na América de "formação espontânea de um mito da reencarnação". Todavia, trata-se de algo além da formação de um mito. Creio que passamos maciçamente do curso Pós-Morte 100 para o Pós-Morte 300. E alguns de nós já estão pensando seriamente no curso final.

Quando ocorre a transição para o curso seguinte? O filósofo Alan Watts explicou isso muito bem. Para Watts (1962), a roda do carma se assemelha a um parque de diversões. Inicialmente, como alma, o indivíduo se arrisca pouco; ele se apega à boa vida quando reencarna. Só depois é que percebe que terá mais oportunidades de aprendizado se passar pelos brinquedos mais arriscados — nascendo pobre (mas virtuoso) ou vivendo uma vida de percalços, mas criativa. Mesmo assim, o sofrimento supremo do tédio acaba intervindo; a idéia da ligação eterna com a roda do carma aterrorizará todos nós, mais cedo ou mais tarde. O cineasta Woody Allen, em Hannah e suas
irmãs, capta perfeitamente esse sentimento:

[...] Nietzsche e sua teoria do eterno retorno. Ele disse que a vida que vivemos será vivida repetidas vezes, do mesmo modo, até a eternidade. Que ótimo. Isso significa que terei de suportar o Holiday on Ice novamente. Não vale a pena. (Mencionado em Fischer, 1993.)

Quando nos sentimos assim, então podemos nos voltar para a idéia da libertação. Perceba que tanto a idéia cristã da eternidade no Céu como a idéia oriental de libertação se referem essencialmente ao estágio que podemos verdadeiramente chamar de imortalidade da alma — nada de novos nascimentos ou mortes. Aquele conceito (céu) é apenas uma versão meio simplificada da forma como chegamos lá — e omite os estágios intermediários. Por isso, não se pense que a reencarnação é um conceito totalmente oriental, importado apenas recentemente para o Ocidente. A reencarnação era uma parte aceita do judaísmo, sob o qual Jesus nasceu.

Muitos estudiosos dizem que, antes de 553 d.C., o cristianismo também aceitava a idéia da reencarnação. Afirmam, ainda, que, naquele ano, foi baixado um decreto pelo Quinto Concílio Ecuménico contra a idéia de que as almas reencarnam, embora outros especialistas no assunto digam que o referido concílio nunca chegou a promulgar oficialmente tal decreto. (Uma boa discussão sobre o tema pode ser encontrada em Bache, 1991, e MacGregor, 1978.)

Um bom número de estudiosos pensa também que a divisão acerca da reencarnação no Ocidente não reflete uma separação entre Ocidente e Oriente, mas uma seção entre as correntes esotéricas e exotéricas das religiões ocidentais. A reencarnação é aceita pelos sufis, o ramo esotérico do Islã. O judaísmo hassídico inclui a reencarnação, assim como os gnósticos e outras tradições místicas do cristianismo (Bache, 1991; Cranston e Williams, 1984). "

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