domingo, 21 de março de 2010

Amor, Liberdade e Solidão, Osho - Meditação


Págs.179 a 184

“Encontrar-se a si mesmo, encontrar o sentido da vida, o significado da vida, a alegria da vida, o esplendor da vida. Encontrar-se a si mesmo é a maior descoberta na vida do homem e este encontro só é possível quando você está só. Quando a sua consciência não está ocupada por nada, por ninguém, quando a sua consciência está completamente vazia – nesse vazio, nesse nada, acontece um milagre. E esse milagre é o fundamento de toda a religiosidade.
O milagre é que, quando não existe mais nada para a sua consciência estar consciente, a sua consciência vira-se para si mesma. Torna-se um círculo. Não encontra obstáculos, não encontra objectos, volta à fonte. E no momento em que o círculo fica completo, você já não é um ser humano comum; você tornou-se parte da divinização que rodeia a existência. Você já não é você mesmo, tornou-se parte de todo o universo – o seu ritmo cardíaco é ele próprio o ritmo do coração universal.
É esta experiência que os místicos têm vindo a procurar durante toda a sua vida e através dos tempos. Não existe outra experiência mais extasiante, mais bem-aventurada. Esta experiência transforma toda a sua perspectiva: onde até agora havia escuridão, há luz; onde havia infelicidade, agora há felicidade; onde até agora havia ódio, raiva, possessão, ciúme, existe só a mais bela flor do amor. Toda a energia que foi desperdiçada em emoções negativas, já não é desperdiçada; assume uma mudança positiva e criativa.
Por um lado, você já não é o seu velho eu; por outro lado, você é, pela primeira vez, o seu eu autêntico. O velho eu foi-se, o novo chegou. O velho morreu; o novo pertence à eternidade, o novo pertence à imortalidade.
É devido a esta experiência que os videntes dos Upanishads declararam que o homem é o amrytasia putrah – “filhos e filhas da imortalidade”.
A menos que vocês se conheçam a si mesmos como seres eternos, parte de um todo, continuarão a recear a morte. O medo da morte acontece simplesmente porque você não está consciente da sua fonte de vida eterna. Uma vez que se apercebe da eternidade do seu ser, a morte torna-se a maior mentira da existência. A morte nunca aconteceu, nunca acontece, nunca acontecerá, porque aquilo que é permanece sempre – de formas diferentes, em níveis diferentes, mas não existe descontinuidade. A eternidade no passado e a eternidade no futuro, ambas lhe pertencem. E o momento do presente torna-se num ponto de encontro de duas eternidades: uma que conduz ao passado, outra que leva ao futuro.
A recordação da sua solidão pode não estar só na sua mente; cada fibra do seu ser; cada célula do seu corpo deve lembrar-se dela – não como uma palavra, mas como um sentimento profundo. Esquecer-se de si mesmo é o único pecado que existe, e lembrar-se de si mesmo é a única virtude.
Gautama Buda enfatizou continuamente ao longo de quarenta e dois anos, de manhã à noite, uma única palavra, sammasati, significa “recordação correcta”. Você lembra-se de muitas coisas, você podendo tornar-se numa Enciclopédia Britânica; a sua mente é capaz de se lembrar de todas as bibliotecas do mundo – mas esta não é a recordação certa Só existe uma recordação certa – o momento em que você se lembra de si mesmo.
(…)
Gautama Buda costumava dizer: “A função do mestre é ajudá-lo a lembrar-se de quem você é. Você não faz parte deste mundo mundano; a sua casa é a casa do divino. Você está perdido no esquecimento; você esqueceu-se que dentro de si esconde-se Deus. Você nunca olha para dentro – porque toda a gente olha para o exterior, você olha igualmente para o exterior.
Estar só é uma grande oportunidade, uma bênção, porque na sua solidão, você está destinado a tropeçar em si mesmo e a lembrar-se, pela primeira vez, de quem você é. Saber que você é uma parte da existência divina, é estar livre da morte, livre da tristeza, livre de ansiedades; livre de tudo aquilo que foi um pesadelo para si por muitas e muitas vidas.
Centre-se mais profundamente na sua solidão. Isso é que é a meditação; tornar-se mais centrado na sua própria solidão. A solidão tem de ser tão pura que nem mesmo um pensamento, nem mesmo um sentimento a perturbe. No momento em que a sua solidão fique completa, a sua experiência nela torna-se o seu saber. O conhecimento não é algo que vem do exterior; é algo que cresce dentro de si,
Esquecer-se de si próprio é o único pecado. E lembrar-se de si é a sua suprema beleza, a sua única virtude, a sua única religião. Você não precisa de ser hindu, não precisa de ser islâmico, não precisa de ser cristão – tudo o que precisa para ser religioso é ser você mesmo.
De facto, nós não estamos separados, mesmo agora – ninguém está separado; toda a existência é uma unidade orgânica. A ideia da separação é devida ao nosso esquecimento. É como se cada folha da árvore começasse a pensar por si, separada por outras folhas… Mas bem no fundo elas são alimentadas pelas mesmas raízes. É uma só árvore, as folhas podem ser muitas. É só uma existência; as manifestações podem ser muitas.
Ao conhecer-se a si mesmo, uma coisa fica imediatamente clara: nenhum homem é uma ilha – nós somos um continente, um vasto continente, uma existência infinita sem quaisquer prisões. A mesma vida corre entre todos, o mesmo amor enche cada coração, a mesma alegria dança em cada ser. Só devido aos nossos mal entendidos pensamos estar separados.
A ideia de separação é uma ilusão nossa. A ideia de unicidade será a nossa experiência única de verdade. Só é necessário um pouco mais de inteligência e você liberta-se do pessimismo, da tristeza, do inferno em que toda a Humanidade vive. O segredo de sair deste inferno é lembrar-se de si mesmo. E esta memória só será possível se você entender a ideia de que está só.
Você poderá ter vivido com a sua mulher ou com o seu marido 50 anos, mas ainda assim serem dois. A sua mulher está só, você está só. Você tem tentado criar uma fachada: “não estamos sós”, “nós somos uma família”, “Nós somos uma sociedade”, “Nós somos uma civilização”, “Nós somos uma cultura”, “Nós somos uma religião organizada”, “Nós somos uma força política organizada”. Mas estas ilusões não irão ajudar em nada.
Você tem de reconhecer, por muito doloroso que pareça ser inicialmente, que “Eu estou só numa terra estranha”. Este reconhecimento é doloroso, no início. Leva consigo todas as suas ilusões – que eram um grande consolo. Mas logo que tenha ousado aceitar a realidade, a dor desaparece. E escondida sob a dor, está a maior de todas as bênçãos do mundo: você conhece-se a si mesmo.
Você é a inteligência da existência, você é a consciência da existência; você é a alma da existência. Você é uma parte desta imensa divinização que se manifesta em centenas de aspectos: nas árvores, nas aves, nos animais, nos seres humanos… mas são diferentes estádios de evolução da mesma consciência. E o homem que se reconhece a si mesmo e sente que o Deus que ele buscava e procurava por todo o mundo habita no seu próprio coração chega ao ponto mais elevado de evolução. Não existe nada mais elevado do que isto.
Faz a sua vida ter sentido pela primeira vez, tornando-se significativa, religiosa. Mas você não será um hindu, não será um cristão, não será um judeu, você será simplesmente religioso. Ao ser hindu ou islâmico ou cristão ou janaísta ou budista, você está a destruir a pureza da religiosidade – não são necessários adjectivos.
O amor é o amor – já alguma vez ouviu falar de amor hindu? Amor islâmico? A consciência é a consciência – alguma vez se debruçou sobre a consciência islâmica a consciência indiana ou sobre a consciência chinesa? A iluminação é a iluminação: quer ocorra num corpo branco ou num corpo negro, quer ocorra num jovem ou num velho, quer ocorra num homem ou numa mulher, não faz qualquer diferença. É a mesma experiência, o mesmo gosto, a mesma doçura, a mesma fragrância.
(…)
O homem inteligente procura primeiro o seu próprio ser, antes de iniciar uma viagem pelo mundo exterior. Isto parece simples e lógico – pelo menos dê primeiro uma olhadela ao interior da sua própria casa antes de ir em busca por todo o mundo. E aqueles que olharam para dentro de si mesmos, encontraram-no, sem excepções.
Gautama Buda não é um budista. A palavra buda significa simplesmente o desperto, aquele que saiu do sono. Mahavira, o Jaina, não é jainista. A palavra jaina significa simplesmente aquele que conquistou – que se conquistou a si mesmo. O mundo precisa de uma grande revolução em que cada indivíduo encontre dentro de si mesmo a sua religião. A partir do momento em que as religiões se tornam organizadas, elas tornam-se perigosas; tornam-se políticas com uma falsa face religiosa. Por isso, todas as religiões do mundo procuram converter cada vez mais pessoas à sua própria religião. É a política dos números; quem tem mais números será mais poderoso. Mas ninguém parece interessado em trazer milhões de indivíduos ao seu próprio eu.
O meu trabalho aqui consiste em levá-lo para fora de qualquer tipo de esforço organizado – porque a verdade nunca pode ser organizada. Você tem de caminhar só na sua peregrinação, porque a peregrinação será interna. Você não pode levar ninguém consigo. E terá de esquecer tudo o que aprendeu com os outros, porque todos esses preconceitos distorcem a sua visão – você não será capaz de ver a realidade nua do seu ser. A realidade nua do seu ser é a única esperança de encontrar Deus.
(…)
O templo de Deus é feito da sua própria consciência, você não pode ir lá com os seus amigos, com os seus filhos, com a sua mulher, com os seus pais.
Todos têm de lá ir sozinhos.”

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