quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos

Da pág.87 à pág.96

“- Talvez o nosso corpo morra, ma a alma sobreviva e o pai possa, numa reencarnação, corrigir os erros desta vida. O pai acredita nisso?

(…)

Manuel Noronha fez um sorriso triste.

- Gostaria de acreditar, claro. Quem é que, estando na minha posição, não gostaria de acreditar em tal coisa? A sobrevivência da alma. A possibilidade de ela reencarnar mais tarde em alguém e eu poder voltar a viver. Que ideia tão bonita. – Abanou a cabeça. – Mas eu sou um homem de ciência e tenho o dever de não me deixar iludir.

- O que quer dizer com isso? Acha que não é possível a alma sobreviver?

- Mas o que é isso da alma?

- É… sei lá… é uma força vital, é um espírito que nos anima.

O velho matemático ficou a mirar o filho por um momento.

- Escuta, Tomás – disse. - Olha para mim. O que vês?

- Vejo o pai.

- Vês um corpo.

- Sim.

- É o meu corpo. Refiro-me a ele como se dissesse: é a minha televisão, é o meu carro, é a minha caneta. Neste caso, é o meu corpo. É algo que é meu, é uma propriedade minha. (…) Mas se eu digo o corpo é meu, o que eu estou a dizer é que eu não sou o corpo. O corpo é meu, não sou eu. Então, o que sou eu? (…) Eu sou os meus pensamentos, a minha experiência, os meus sentimentos. Isso sou eu. Eu sou uma consciência. Mas agora repara. Será que a minha consciência, este eu que sou eu, é a alma?

- Uh… sim, suponho que sim.

- O problema é que este que sou eu é produto de substâncias químicas que me circulam pelo corpo, de transmissões eléctricas entre neurónios, de heranças genéticas codificadas no meu ADN, de um sem número de condicionalismos exteriores e intrínsecos que moldam este eu que sou eu. O meu cérebro é uma complexa máquina electroquímica que funciona como um computador e a minha consciência esta noção que eu tenho da minha existência, é uma espécie de programa. Percebes? De uma certa forma e literalmente, os miolos são o hardware, a consciência o software. O que levanta naturalmente questões interessantes. Será que um computador tem alma? Se o ser humano é um computador muito complexo, será que ele próprio tem ama? Se todo o circuito morrer, a alma sobrevive? Sobrevive onde? Em que sítio?

- Bem… ergue-se do corpo e vai… enfim.. vai…

- Vai para o céu?

- Não, vai… sei lá, vai para uma outra dimensão.

- Mas de que é feita essa alma que se ergue do corpo? De átomos?

- Não, acho que não. Deve ser uma substância incorpórea.

- Não tem átomos?

- Julgo que não. É um… uh… espírito.

- Bem, isso leva-me a formular uma outra pergunta. (…) Será que, um dia, no futuro, a minha alma se lembrava desta minha existência?

- Sim, dizem que sim.

- Mas isso não faz sentido, pois não?

- Porque não?

- Repara, Tomás. Como é que nós organizamos a nossa consciência? Como é que eu sei que eu sou eu, que sou um professor de Matemática, que sou teu pai e marido da tua mãe? Que nasci em Castelo Branco e que já estou quase careca? Como é que eu sei tudo sobre mim?

- O pai conhece-se por causa de tudo o que viveu, do que fez e do que disse, do que ouviu, viu e aprendeu.

- Exacto. Eu sei que sou eu porque tenho memória de mim mesmo, de tudo o que me aconteceu, mesmo o que aconteceu há apenas um segundo. Eu sou a memória de mim mesmo. E onde se localiza essa memória?

- No cérebro, claro.

- Nem mais. A minha memória encontra-se localizada no cérebro, armazenada em células. Essas células fazem parte do meu corpo. E é aqui que está a questão. Quando o meu corpo morre, as células da memória deixam de ser alimentadas por oxigénio e morrem também. Apaga-se assim toda a minha memória, a lembrança do que eu sou. Se assim é, como raio pode a minha alma lembrar-se da minha vida? Se a alma não tem átomos, não pode ter células da memória, não é? Por outro lado, as células onde a memória da minha vida se encontrava gravada já morreram. Nessas condições, como é que a alma se lembra do que quer que seja? Não achas tudo isso um pouco sem sentido?

- Mas o pai fala como se nós fossemos todos umas máquinas, uns computadores. (…) Eu tenho uma novidade para lhe dar. Nós não somos computadores, somos gente, somos seres vivos.

- Ah, sim? E qual é a diferença entre os dois?

- Bem, nós pensamos, sentimos, vivemos. Os computadores não.

- E tens a certeza de que somos mesmo diferentes?

- Então não somos, pai? Os seres vivos são biológicos, os computadores não passam de circuitos.

(…)

- O que disseste, filho, é o que qualquer biólogo diria, fica descansado. Mas, se perguntares a um biólogo o que é a vida, ele vai-te responder mais ou menos assim: a vida é um conjunto de processos complexos baseados no átomo de carbono. (…) Atenção. Mesmo o mais lírico dos biólogos reconhece, no entanto, que a expressão-chave desta definição não é átomo de carbono, mas processos complexos. É verdade que todos os seres vivos que conhecemos são constituídos por átomos de carbono, mas não é isso verdadeiramente o que é estruturante para a definição da vida. Há bioquímicos que admitem que as primeiras formas de vida na Terra não foram baseadas nos átomos de carbono, mas nos cristais. Os átomos são apenas a matéria que torna a vida possível. Não interessa se é o átomo A ou o átomo B. Imagina que eu tenho o átomo A na cabeça e que, por algum motivo, ele é substituído pelo átomo B. Será que eu deixo de ser eu só por esse motivo? (…) Não me parece. O que faz com que eu seja eu é um padrão, uma estrutura de informação. Ou seja, não são os átomos, é a forma como os átomos se organizam. (…) Sabes de onde é que vem a vida?

- De onde?

- Vem da matéria.

- Ora, grande novidade!

- Não estás a perceber onde é que eu quero chegar. (…) Os átomos que estão no meu corpo são exactamente iguais aos átomos que estão nesta mesa ou numa qualquer galáxia distante. Eles são todos iguais. A diferença está na forma como eles se organizam. O que é que achas que organiza os átomos de forma a formarem células vivas?

- Uh… não sei.

- Será uma força vital? Será um espírito? Será Deus?

- Se calhar…

- Não, filho. (…) O que organiza os átomos de modo a formarem células vivas são as leis da física. É essa a questão central. Repara, como pode um conjunto de átomos inanimados formar um sistema vivo? A resposta está na existência de leis de complexidade. Todos os estudos mostram que os sistemas se organizam espontaneamente, de modo a criarem sempre estruturas cada vez mais complexas, em obediência a leis da física e exprimindo-se por equações matemáticas. Houve até um físico que ganhou o Prémio Nobel por demonstrar que as equações matemáticas por detrás das reacções químicas inorgânicas são semelhantes às equações que regem os padrões de comportamento simples de sistemas biológicos avançados. Ou seja, os organismos vivos são, na verdade, o produto de uma incrível complexificação dos sistemas inorgânicos. E essa complexificação não resulta da actividade de uma qualquer força vital, mas da organização espontânea da matéria. Uma molécula, por exemplo, pode ser constituída por um milhão de átomos ligados de uma forma muito específica e complicada e a sua actividade é controlada por estruturas químicas tão complexas que se assemelham a uma cidade. (…) O segredo da vida não está nos átomos que constituem a molécula, está na sua estrutura, na sua organização complexa. Essa estrutura existe porque obedece a leis de organização espontânea da matéria. E, da mesma maneira que a vida é o produto da complexificação da matéria inerte, a consciência é o produto da complexificação da vida. A complexidade da organização é que é a questão-chave, não é a matéria. (…) Não importa se a vida é baseada no átomo de carbono ou em cristais ou em qualquer outra coisa. O que faz a vida é uma estrutura de informação, é uma semântica, é uma organização complexa. (…) Podem-me mudar todos os átomos e substituí-los por outros, que eu continuo a ser eu. Aliás, já está provado que, ao longo da vida, vamos mesmo mudando quase todos os átomos. (…) Não interessa qual é o átomo que, num dado momento, preenche a estrutura. O que interessa é a estrutura em si. Desde que os átomos viabilizem a estrutura de informação que define a minha identidade e as funções dos meus órgãos, a vida é possível. (…) A vida é uma muito complexa estrutura de informação e todas as suas actividades envolvem processamento de informação. (…) Esta definição, no entanto, tem uma profunda consequência. É que, se o que constitui a vida é um padrão, uma semântica, uma estrutura de informação que se desenvolve e interage com o mundo em redor, nós, feitas as contas, somos uma espécie de programa. A matéria é o hardware, a nossa consciência é o software. (…) Nós somos um muito avançado programa de computador. (…) Sendo uma criatura natural, tudo o que ele faz (o Homem) é natural. Logo, as suas criações são naturais, da mesma maneira que o ninho feito pelas aves é uma coisa natural. (…) tudo na natureza é natural. Se o homem é um produto da natureza, então tudo o que ele faz também é natural. Apenas por uma convenção de linguagem se estabeleceu que os objectos que ele cria são artificiais, quando, na verdade, são tão naturais quanto os objectos que as aves criam. Logo, sendo criações de um animal natural, os computadores, tais como os ninhos, são naturais. (…) Sabes, as emoções e a consciência resultam de se atingir um determinado grau de inteligência. (…) a inteligência é uma forma de elevada complexidade. E não é preciso atingir-se o grau da inteligência humana para se criar a consciência. (…) O cão tem emoções e consciência. Logo, as emoções e a consciência são mecanismos que emergem a partir de um determinado grau de complexidade de inteligência.

- Portanto, o pai acha que os computadores, se atingirem esse grau de complexidade, tornar-se-ão emotivos e conscientes?

- Sem dúvida.”

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