sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos

Págs.97, 98 e 99

“- E é possível torná-los (os computadores) tão inteligentes quanto os seres humanos?

- Em teoria, nada o impede, (…) é verdade que, durante muito tempo, os cientistas acharam que não, devido a um complicado problema matemático. (…) nós, matemáticos, sempre acreditámos que Deus é um matemático e que o Universo está estruturado segundo equações matemáticas. Essas equações, por mais complexas que pareça, são todas elas resolúveis. Se não se consegue resolver uma equação, isso não se deve ao facto de ela ser irresolúvel, mas às limitações do intelecto humano em resolvê-la. (…) A questão dos computadores poderem ou não adquirir consciência, está ligada a um dos problemas da matemática, a questão dos paradoxos, auto-referenciais. Por exemplo, repara no que eu vou dizer. Eu só digo mentiras. Notas aqui alguma anomalia?

- Em quê?

- Nesta frase que acabei de formular. Eu só digo mentiras.

Tomás soltou uma gargalhada.

- É uma grande verdade.

O pai olhou-o com ar condescendente.

- Ora aí está. Se é verdade que eu só digo mentiras, então, tendo dito uma verdade, eu não digo só mentiras. Se a frase é verdadeira, ela própria contém uma contradição dentro de si. (…) Durante muito tempo, pensou-se que este era um mero problema semântico, resultante das limitações da língua humana. Mas, quando este enunciado foi transposto para uma formulação matemática, a contradição manteve-se. Os matemáticos passaram muito tempo a tentar resolver o problema, sempre na convicção de que ele era resolúvel. Essa ilusão foi desfeita em 1931 por um matemático chamado Kurt Godel, que formulou dois teoremas, chamados da Incompletitude. Os teoremas da Incompletitude são considerados um dos maiores feitos intelectuais do século xx e deixaram os matemáticos em estado de choque. (…) A questão essencial é que Godel provou que não existe nenhum procedimento geral que demonstre a coerência da matemática. Há afirmações que são verdadeiras mas não são demonstráveis dentro do sistema. Esta descoberta teve profundas consequências, ao revelar as limitações da matemática, expondo assim uma subtileza desconhecida na arquitectura do Universo. (…) Os teoremas de Godel sugerem que, por mais sofisticados que sejam, os computadores vão sempre enfrentar limitações. Apesar de não conseguir demonstrar a coerência de um sistema matemático, o ser humano consegue perceber que muitas afirmações dentro do sistema são verdadeiras. Mas o computador, colocado perante tal contradição irresolúvel, bloqueará. Logo, os computadores jamais serão capazes de igualar os seres humanos. (…) nós podemos apresentar ao computador uma fórmula que sabemos não ser verdadeira, mas que o computador não pode provar que é verdadeira. É verdade. Mas também é verdade que o computador nos pode fazer o mesmo. A fórmula só não é demonstrável, para quem está a trabalhar dentro do sistema, entendes? Quem estiver fora do sistema entende a fórmula. Isso é válido para um computador como para um ser humano. Conclusão: é possível um computador ser tão ou mais inteligente quanto as pessoas. (…) não passamos de computadores muito sofisticados. Achas que os computadores podem vir a ter alma?

- Que eu saiba, não.

- Então, se nós somos computadores muito sofisticados, também não podemos ter. A nossa consciência, as nossas emoções, tudo o que sentimos é resultado da sofisticação da nossa estrutura. Quando morremos, os chips da nossa memória e da nossa inteligência, irão desaparecer e nós apagamo-nos. (…) A alma, meu querido filho, não passa de uma invenção, de uma maravilhosa ilusão criada pelo nosso ardente desejo de escaparmos à inevitabilidade da morte.”

Sem comentários:

Enviar um comentário