segunda-feira, 31 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.231, 232, 233 e 234

“Mas o mundo progrediu – respondi. Ele perguntou se eu sabia História – é claro que sabia. Fez outra pergunta: há milhares de anos não éramos capazes de construir grandes edifícios como as Pirâmides? (…) É claro que sim, Mas embora nos tivéssemos organizado, hoje em dia, para substituir os escravos gratuitos por escravos com salário, todos os avanços acontecem apenas no campo da ciência. Os seres humanos ainda continuam com as mesmas perguntas dos seus ancestrais. Ou seja, não evoluíram absolutamente nada. (…)

(…)

(…) existiam duas tradições; uma, que nos faz repetir a mesma coisa ao longo dos séculos. A outra, que nos abre a porta do desconhecido. Mas esta segunda tradição é incómoda, desconfortável e perigosa, porque se tiver muitos adeptos, acabará por destruir a sociedade que tanto custou a ser organizada, tendo como exemplo as formigas.

(…)

“Tenho medo de dar passos que não estão no mapa, mas, apesar dos meus medos, ao fim do dia a vida parece-me muito mais interessante.”

(…)

Se não fosse biólogo, o que é que seria?

Eu respondi: Ferreiro, mas não dá dinheiro. Ele retorquiu: Então quando se cansar de ser o que não é, vá divertir-se e celebrar a vida a bater com um martelo num ferro. Com o tempo, descobre que isso lhe vai dar mais do que prazer: dá-lhe um sentido.

Como posso seguir essa tradição de que falou?

Já disse, pelos símbolos - respondeu ele. Comece por fazer o que quer, e tudo o resto lhe será revelado (…).

(…)

Apenas sei que, a partir daquele momento, os símbolos começaram a aparecer, porque os meus olhos tinham sido abertos devido àquela conversa.

(…)

Passei a dividir o meu tempo entre as pesquisas biológicas e o trabalho de ajudante de ferreiro. Estava sempre cansado, mas mais alegre do que anteriormente. Um dia, abandonei o emprego e montei a minha própria ferraria, o que não correu nada bem no início; precisamente quando eu começava a acreditar na vida, as coisas pioravam sensivelmente.

(…)

- Sei que Deus me está a colocar no fogo das aflições. Tenho aceitado as marteladas que a vida me dá, e às vezes sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é: Meu Deus, Minha Mãe, não desista, até que eu consiga tomar a forma que espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, durante o tempo que quiser (…).”

domingo, 30 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.227 e 228

“(…) o mestre nunca diz ao discípulo o que deve fazer. Apenas são companheiros de viagem, que dividem a mesma e difícil sensação de “estranhamento” diante das percepções que mudam sem parar, dos horizontes que se abrem, das portas que se fecham, dos rios que às vezes parecem atrapalhar o caminho – e que na verdade não devem ser atravessados, mas percorridos.

A diferença entre o mestre e o discípulo é só uma: o primeiro tem relativamente menos medo do que o segundo. Então, quando se sentam à volta de uma mesa ou de uma fogueira para conversar, o mais experiente sugere: “Porque é que não faz isto?”

Nunca diz: “Venha por aqui, e vai chegar onde eu cheguei”, já que cada caminho é único e que cada destino é pessoal.

O verdadeiro mestre provoca no discípulo a coragem de desequilibrar o seu mundo, embora também ele esteja com receio das coisas que tem encontrado, e com mais receio ainda do que lhe reserva a próxima curva.”

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.213

“O destino será implacável com os que querem viver num universo que já acabou. (…) Quem acredita que fracassou, fracassará sempre. Quem acha que não consegue agir de forma diferente, será destruído pela rotina. Quem resolve impedir as mudanças, vai transformar-se em pó.”

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.200 e 201

“(…) as mudanças só acontecem quando fazemos algo que vai contra, completamente contra tudo aquilo a que estamos acostumados.

(…)

Uma das coisas mais agressivas no ser humano é ir contra o que acha bonito, e vamos fazer isso hoje. Vamos dançar mal. Toda a gente.”

“(…) a melhor maneira de meditar, de entrar em contacto com a luz, era fazer tricô – que a minha mãe me ensinara quando eu era criança. Sabia contar os pontos, mexer as agulhas, criar belas coisas através da repetição e da harmonia. Um dia, o meu protector pediu-me para tricotar de uma maneira completamente irracional! Algo muito violento para mim, que tinha aprendido o trabalho com carinho, paciência e dedicação. Mesmo assim, ele insistiu que eu fizesse um péssimo trabalho.

Durante das horas achei aquilo ridículo, absurdo, a minha cabeça doía-me, mas não podia deixar que as agulhas guiassem as minhas mãos. Qualquer um de nós é capaz de fazer alguma coisa errada, porque é que me estava a pedir isto? Porque conhecia a minha obsessão pela geometria e pelas coisas perfeitas.

E, de repente, aconteceu; parei as agulhas, senti um vazio imenso, que foi preenchido por uma presença cálida, amorosa, companheira. À minha volta, tudo estava diferente, e senti vontade de dizer coisas que nunca ousaria no meu estado normal. Mas não perdi a consciência, sabia que era eu própria, embora, aceitemos o paradoxo, não fosse a pessoa com quem eu estivesse acostumada a conviver.

(…)

Depois de algum tempo, a alma desligou-se do corpo, foi aberto um espaço (…).

(…) Antiga, mas com uma aparência jovem. Sábia, mas não omnipotente. Especial, mas sem arrogância. A percepção mudou, e ela passou a ver as mesmas coisas que via quando era criança – os universos paralelos que povoam este mundo. Nesse momento, podemos ver não só o corpo físico, mas as emoções das pessoas. Dizem que os gatos têm o mesmo poder, e eu acredito.

(…)

Voltando ao meu tricô: usei este processo durante algum tempo até que consegui provocar esta presença sem artifício nenhum, já que a conhecia e que me estava a acostumar a ela. (…) uma vez que sabemos onde estão as Portas da Percepção, é fácil abrir e fechá-las, desde que nos habituemos ao nosso comportamento “estranho”.

E cabe-me acrescentar: o meu tricô ficou muito mais rápido e melhor, da mesma maneira que Athena passou a dançar com muito mais alma e ritmo depois de ter ousado quebrar essas barreiras.”

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.197 e 198

“ – Ele diz que a terra quer ritos? Pois eu garanto-vos: se tiverem amor suficiente entre vós, a colheita será farta, porque este é um sentimento que tudo transforma. Mas o que é que eu vejo? Amizade. A paixão extinguiu-se há muito tempo, porque já se acostumaram uns aos outros. É por isso que a terra dá apenas o que deu no ano anterior, nem mais nem menos. E é por isso que, no escuro das vossas almas, se queixam silenciosamente de que nada muda nas vossas vidas. Porquê? Porque tentaram controlar a força que tudo transforma, de modo que as vossas vidas pudessem continuar sem grandes desafios.”

terça-feira, 25 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.191

“Que experiência? Viver como ser humano e como divindade. Passar da tensão ao relaxamento. Do relaxamento, ao transe. Do transe ao contacto mais intenso com as pessoas. (…)

Não é nada fácil – principalmente porque exige um amor incondicional, que não teme o sofrimento, a rejeição, a perda.

Mas, para quem bebe uma vez desta água, é impossível voltar a matar a sua sede noutras fontes.”

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.182 e 183

“Ninguém parecia dar muita importância ao assunto, até que encontrei François Shepka, um psicólogo indiano (…) que estava a começar a revolucionar as terapias actualmente em voga: segundo ele, esta história de voltar à infância para resolver os traumas nunca tinha levado o ser humano a lado nenhum – muitos dos problemas que já tinham sido superados ao longo da vida acabavam por regressar, e as pessoas adultas voltavam a culpar os seus pais pelos seus fracassos e pelas suas derrotas. (…) Disse que segundo um dos mais respeitados psicanalistas da História, o suíço Carl Gustav Jung, todos nós bebemos de uma mesma fonte. Chama-se “a alma do mundo”; embora tentemos ser indivíduos singulares uma parte da nossa memória é igual.

(…)

Jung costumava classificar o progresso individual em quatro etapas: a primeira era a Persona – a máscara que usamos todos os dias, para fingir quem somos. Acreditamos que o mundo depende de nós, que somos óptimos pais e que os nossos filhos não nos compreendem, que os patrões são injustos, que o sonho do ser humano é não ter de trabalhar (…). Muitas pessoas dão-se conta de que alguma coisa está errada nesta história: mas como não querem mudar absolutamente nada, acabam por afastar rapidamente o assunto das suas cabeças. Muito poucas tentam perceber o que é que está errado, acabando estas por encontrar a Sombra,

A Sombra é o nosso lado negro, que dita como devemos agir e comportar-nos. Quando tentamos livrar-nos da Persona, acendemos uma luz dentro de nós, e conseguimos ver as teias de aranha, a cobardia, a mesquinhez. A Sombra está ali para impedir o nosso progresso – e geralmente consegue, voltamos rapidamente a ser quem éramos, antes de duvidar. Contudo, alguns sobrevivem a este embate com as suas teias de aranha, dizendo: “Sim, tenho uma série de defeitos, mas sou digno, e quero ir adiante.”

Nesse momento, a Sombra desaparece, e entramos em contacto com a Alma.

Por alma, Jung não está a definir nada religioso; fala de um regresso à tal Alma do Mundo, fonte do conhecimento. Os instintos começam a tornar-se mais aguçados, as emoções são radicais, os sinais da vida são mais importantes do que a lógica, a percepção da realidade já não é tão rígida. Começamos a lidar com coisas às quais não estamos acostumados, passamos a reagir de maneira inesperada até para nós próprios. E descobrimos que se conseguirmos canalizar todo este jorro de energia contínua, vamos organizá-lo num centro muito sólido (…).”

domingo, 23 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.168

“ – E o maior mérito não é daquele que oferece, mas do que recebe sem se sentir devedor. O homem dá pouco quando apenas dispõe dos bens materiais que possui; mas dá muito quando se entrega a si próprio.”

sábado, 22 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.160 e 161

“É evidente que algumas mulheres dizem: “Eu não vou lavar pratos, os homens que os lavem.” Pois eles que lavem se quiserem, mas não veja nisso uma igualdade de direitos. Não há nada de errado em fazer coisas simples – embora, se amanhã eu publicasse um artigo com tudo o que penso, me criticassem certamente por estar a lutar contra a causa feminina.

Que parvoíce! Como se lavar pratos, ou usar sutiã, ou abrir e fechar portas fosse algo que humilhasse a minha condição de mulher. Na verdade, eu gosto quando um homem me abre a porta: nas regras de etiqueta está escrito “ela precisa que eu faça isso, porque é frágil”, mas na minha alma está escrito “sou tratada como uma deusa, sou uma rainha.”

Eu não estou aqui para lutar pela causa feminina, porque tanto os homens como as mulheres são uma manifestação da Mãe, a Unidade Divina. Ninguém pode ser maior do que isso.

Adorava poder vê-la dar aulas sobre o que está a aprender; esse é o objectivo da vida –a revelação! Você transforma-se num canal, ouve-se a si própria, surpreende-se com o que é capaz. Lembra-se do trabalho no banco? Talvez nunca tenha percebido, mas era a energia a fluir pelo seu corpo, pelos seus olhos, pelas suas mãos.

Podia dizer-me: “Não é bem assim, era a dança.”

A dança funciona simplesmente como um ritual. O que é um ritual? É transformar o que é monótono em algo que seja diferente, ritmado, e que possa canalizar a Unidade. Por isso é que eu insisto: seja diferente até a lavar pratos. Mexa as mãos de modo a nunca repetir o mesmo gesto – embora mantenham a cadência.”

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.159

“Tente sentir-se bem quando achar que é a última das criaturas. Não acredite que está mal: deixe que a Mãe possua o seu corpo e a sua alma, entregue-se através da dança e do silêncio, ou das coisas mais banais da vida – como levar o filho à escola, preparar o jantar, ver se a casa está bem arrumada. Tudo é adoração – se estiver com a mente concentrada no momento presente.”

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.149

“E não me surpreende que cada vez mais pessoas se interessem pelas tradições pagãs. Porquê? Porque o Deus Pai é sempre associado ao rigor e à disciplina do culto. A Deusa Mãe, pelo contrário, mostra a importância do amor acima de todas as proibições e tabus que conhecemos.

O fenómeno não é novidade; sempre que a religião intensifica as suas normas, um grupo significativo de pessoas tende a ir em busca de mais liberdade através do contacto espiritual. Isto aconteceu durante a Idade Média, quando a Igreja Católica se limitava a criar impostos e a construir conventos luxuosos; como reacção, assistimos ao surgimento de um fenómeno chamado “feitiçaria”, que, apesar de reprimido por causa do seu carácter revolucionário, deixou raízes e tradições que conseguiram sobreviver durante todos estes séculos.

Nas tradições pagãs, o culto da natureza é mais importante que a reverência aos livros sagrados; a Deusa está em tudo, e tudo faz parte da Deusa. O mundo é apenas uma expressão da sua bondade. Existem muitos sistemas filosóficos – como o taoísmo ou o budismo – que eliminam a ideia da distinção entre o criador e a criatura. As pessoas já não tentam decifrar o mistério da vida, e sim fazer parte dele; também no taoísmo e no budismo, mesmo sem a figura feminina, o princípio central afirma que “tudo é uma só coisa.”

No culto da Grande Mãe, o que chamamos “pecado”, geralmente uma transgressão de códigos morais arbitrários, deixa de existir; o sexo e os costumes são mais livres, porque fazem parte da natureza, e não podem ser considerados como frutos do mal.

O novo paganismo mostra que o homem é capaz de viver sem uma religião instituída, e ao mesmo tempo continuar a busca espiritual para justificar a sua existência. Se Deus é mãe, então só é preciso reunir-se a adorá-la através de ritos que tentam satisfazer a sua alma feminina – como a dança, o fogo, a água, o ar, a terra, o canto, a música, as flores, a beleza.”

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.144

“(…) tentar, sempre que possível, fazer algo que não esteja de acordo com a realidade que nos rodeia.

(…)

Eu tinha a certeza absoluta de que ela me ia ouvir, principalmente porque fazia parte do tipo de pessoas que nunca renuncia a um desafio.

- Ensine as pessoas a serem diferentes. Só isso! – gritei, enquanto o táxi se afastava.

Isso é alegria. Felicidade seria estar satisfeita com tudo o que já tinha: um amor, um filho, um emprego. E Athena, da mesma forma que eu, não nasceu para esse tipo de vida.”

terça-feira, 18 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.140 e 141

“Quando estou rodeada de um grupo de pessoas e decido provocá-las, usando uma das perguntas mais importantes da nossa existência, todas elas respondem: “Sou feliz.”

Eu continuo: “mas não deseja ter mais, não quer continuar e crescer?” Todas respondem: “É claro.”

Eu insisto: “Então, não é feliz.” Mudam todas de assunto.

(…)

Esqueça definitivamente a ideia de que um caminho é uma maneira de chegar a um destino: na verdade, estamos sempre a chegar a cada passo. Repita isto (…): “Eu cheguei.” Vai ver que é muito mais fácil estar em contacto com cada segundo do seu dia.”

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Pág.130

“Foi a primeira vez, ao longo de todos esses dias, (…) eu comportava-me como uma rapariga que acaba de perceber que o mundo não está cheio de fantasmas e de maldições, como os adultos nos ensinaram; está repleto de amor, independentemente de como ele se manifesta. Um amor que perdoa os seus erros, e que redime os seus pecados.”

domingo, 16 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.124 e 125

“Vejo a tempestade que se aproxima. Como todas as tempestades, ela traz destruição; mas ao mesmo tempo, molha os campos, e a sabedoria do céu desce juntamente com a chuva. Como todas as tempestades, ela deve passar. Quanto mais violenta, mais rápida.”

sábado, 15 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.110

“Agora ela sabia onde me encontrar, e, se estivesse escrito, íamos ver-nos novamente; é importante permitir que o destino interfira nas nossas vidas, e decida o que é melhor para todos.”

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Pág. 89

“- Existem dois tipos de letras – explicava eu. – A primeira é feita com precisão, mas sem alma. Nesse caso, embora o calígrafo tenha um grande domínio da técnica, concentra-se exclusivamente no ofício – e por causa disso não evolui, torna-se repetitivo, não consegue crescer, e um dia vai deixar o exercício da escrita, porque acha que tudo se transformou numa rotina.”


Pág. 91

“A sua caligrafia está cada vez mais pessoal, mais espontânea, já não é apenas uma repetição da beleza, mas um gesto de criação pessoal. Compreendeu o que os grandes pintores compreendem: para esquecer as regras, é preciso conhecê-las e respeitá-las.”

Pág.92

“- E apesar de dominar as palavras, ainda não domina os espaços em branco. A sua mão, quando está concentrada, é perfeita. Quando salta de uma palavra para outra, perde-se.

- Como é que sabe disso?

- Tenho razão?

- Tem toda a razão. Nalgumas fracções de segundo, antes de me concentrar na próxima palavra, eu perco-me. As coisas em que eu não quero pensar insistem em dominar-me.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Pág. 87

“(…) antes da palavra, existe o pensamento. E, antes do pensamento, existe a centelha divina que o colocou ali. Tudo, absolutamente tudo nesta terra fazia sentido, e as mais pequenas coisas deviam ser levadas em consideração.”

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.76 e 77

“Nascemos, crescemos e fomos educados com a máxima: tempo é dinheiro. Sabemos exactamente o que é o dinheiro, mas qual o significado da palavra tempo? O dia compreende 24 horas e uma infinidade de momentos. Precisamos de ter consciência de cada minuto, de saber aproveitá-lo naquilo que estamos a fazer ou apenas na contemplação da vida. Se desacelerarmos, o tempo prolonga-se.”

terça-feira, 11 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.65

“(…) prefiro aceitar a minha solidão: se tentar fugir dela neste momento, nunca vou voltar a encontrar um parceiro. Se a aceitar em vez de ficar a lutar contra ela, talvez as coisas mudem.”

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.62 e 63

“Santo é aquele que dignifica a sua vida – expliquei. – Basta perceber que todos nós estamos aqui por uma razão, e basta comprometer-nos com ela. Assim podemo-nos rir dos nossos pequenos ou grandes sofrimentos, e caminhar sem medo, conscientes de que cada passo tem um sentido. Podemo-nos deixar guiar pela luz que emana do Vértice.

- O que é o Vértice? Em Matemática, é o ponto superior de um triângulo.

- Na vida também é o ponto culminante, a meta de todos aqueles que erram como toda a gente, e que, mesmo nos momentos mais difíceis, não perdem de vista a luz que emana do seu coração. É isto que tentamos fazer no nosso grupo. O Vértice está escondido dentro de nós, mas podemos chegar até ele se o aceitarmos e se reconhecermos a sua luz. “

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs de 53 a 58

“Reparei nela quando entrou para a missa de domingo, trazia como sempre o bebé ao colo. Eu sabia das dificuldades que estavam a atravessar, mas até àquela semana para mim tudo não passava de um desentendimento normal no seio de um casal, que eu esperava que fosse resolvido mais cedo ou mais tarde, já que ambos eram pessoas que irradiavam o Bem à sua volta.

Há um ano que não vinha tocar com a sua viola e louvar a Virgem na parte da manhã; dedicava-se a tratar de Viorel, que eu tive a honra de baptizar, embora não me lembre de nenhum santo com esse nome. Mas continuava a frequentar a missa todos os domingos, e conversávamos sempre no final, quando todos já se tinham ido embora. Dizia que eu era o seu único amigo; participámos juntos nas adorações divinas, mas agora precisava de partilhar comigo as dificuldades terrenas.

Amava Lukás mais do que qualquer homem que tinha conhecido; era o pai do seu filho, a pessoa que tinha escolhido para partilhar a sua vida, alguém que renunciara a tudo e que tivera coragem suficiente para construir uma família. Quando as crises começaram, ela tentou fazê-lo compreender que era passageiro, que precisava de se dedicar ao filho, mas que não tinha a mínima intenção de o transformar numa criança mimada; em breve, deixaria que ele enfrentasse sozinho certos desafios da vida. A partir de então, voltaria a ser a esposa e a mulher que ele tinha conhecido nos primeiros encontros, talvez até com mais intensidade, porque agora conhecia melhor os deveres e as responsabilidades da escolha que fizera. Mesmo assim, Lukás sentia-se rejeitado; ela tentava desesperadamente dividir-se entre os dois, mas era sempre obrigada a escolher – e nesses momentos, sem a menor sombra de dúvida, escolhia Viorel.

Com os meus parcos conhecimentos psicológicos, disse que não era a primeira vez que ouvia este género de conversa, e que os homens normalmente se sentem rejeitados numa situação como esta, mas rapidamente lhes passa (…). Numa destas conversas, Athena reconheceu que talvez se tivesse precipitado um pouco, o romantismo de ser mãe muito nova não lhe deixou ver com clareza os verdadeiros desafios que surgem depois do nascimento de um filho. Mas agora era tarde de mais para arrependimentos.

Chegou a perguntar-me se eu podia conversar com Lukás – que nunca aparecia na igreja, quer porque não acreditava em deus quer porque preferia aproveitar as manhãs de domingo para estar mais tempo com o filho. Eu prontifiquei-me a fazê-lo, desde que ele viesse por vontade própria. E quando Athena estava prestes a pedir-lhe este favor, a grande crise aconteceu, e o marido saiu de casa.

Aconselhei-a a ter paciência, mas ela estava profundamente magoada. Já tinha sido abandonada uma vez na infância, e todo o ódio que sentia pela sua mãe de sangue foi automaticamente transferido para Lukás – embora mais tarde, pelo que soube, tenham voltado a ficar bons amigos. Para Athena, romper os laços familiares era talvez o pecado mais grave que alguém podia cometer. Continuou a frequentar a igreja aos domingos, mas voltava logo para casa, já que não tinha com quem deixar o filho – o menino chorava muito durante a cerimónia, o que perturbava a concentração dos outros fiéis. Num dos raros momentos em que pudemos conversar, disse que estava a trabalhar num banco, que tinha alugado um apartamento, e que não me preocupasse; o “pai” (ela tinha deixado de dizer o nome do marido) estava a cumprir com as suas obrigações financeiras.

Até que chegou aquele fatídico domingo.

Eu sabia o que se tinha passado durante a semana – um dos paroquianos tinha-me contado. Pedi durante algumas noites que um anjo me inspirasse, que me dissesse se devia manter o meu compromisso com a Igreja ou o meu compromisso com os homens. Como o anjo não apareceu, entrei em contacto com o meu superior, e ele disse-me que a Igreja só conseguiu sobreviver porque foi sempre rígida com os seus dogmas – se tivesse aberto excepções, estávamos perdidos desde a Idade Média. Sabia exactamente o que ia acontecer, pensei em telefonar a Athena, mas não me tinha deixado o seu novo número.

Naquela manhã, as minhas mãos tremeram quando eu levantei a hóstia, ao consagrar o pão. Proferi as palavras que a tradição milenar me tinha transmitido, usando o poder passado de geração em geração pelos apóstolos. Mas, de imediato, o meu pensamento se voltou para aquela rapariga com o filho ao colo – uma espécie de Virgem Maria, o milagre da maternidade e do amor manifestados no abandono e na solidão – que acabara de entrar na fila como sempre fazia e que, a pouco e pouco, se aproximava para comungar.

Penso que grande parte da congregação ali presente sabia o que se estava a passar. E todos olharam para mim, à espera da minha reacção. Vi-me cercado de justos, pecadores, fariseus, sacerdotes do Sinédrio, apóstolos, discípulos, gente de boa e de má vontade.

Athena parou diante de mim e repetiu o mesmo gesto de sempre: fechou os olhos e abriu a boca para receber o corpo de Cristo.

O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mãos.

Ela abriu os olhos sem perceber o que se estava a passar.

- Depois conversamos – sussurrei.

Mas ela não se mexeu.

- Há pessoas atrás de ti na fila. Conversamos depois.

- O que está a acontecer? – todos os que estavam perto ouviram a sua perguntar.

- Depois conversamos.

- Porque é que não me dá a comunhão? Não vê que me está a humilhar à frente de toda a gente? Não basta tudo aquilo por que já passei?

- Athena, a Igreja proíbe que as pessoas divorciadas recebam o sacramento. Assinaste os papéis esta semana. Conversamos depois – insisti uma vez mais.

Como não se mexia, fiz menção para que a pessoa atrás dela passasse pelo lado. Continuei a dar a comunhão até que o último paroquiano a tivesse recebido. E foi então que, antes de voltar ao altar, ouvi aquela voz.

Já não era a voz da rapariga que cantava para adorar a Virgem, que conversava sobre os seus planos, que se comovia ao contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava ao partilhar as suas dificuldades do casamento. Era a voz de um animal ferido, humilhado, com o coração repleto de ódio.

- Pois maldito seja este lugar! – disse a voz. Malditos sejam aqueles que nunca ouviram a voz de Cristo, e que transformaram a sua mensagem numa construção de pedra. Pois Cristo disse: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Eu estou oprimida, ferida e não me deixam ir até Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: “Vinde a mim os que seguem as nossas regras e deixai os oprimidos de parte!”

Ouvi uma das mulheres na primeira fila dizer-lhe que se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava de ouvir. Voltei-me e fiquei diante dela, com a cabeça baixa – era a única coisa que podia fazer.

- Juro que nunca voltarei a pôr os pés numa igreja. Uma vez mais sou abandonada por uma família, e agora não tem a ver com dificuldades financeiras, ou imaturidade de quem casa cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta a uma mãe e a um filho! Vocês são iguais àqueles que não acolheram a Sagrada Família, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de um amigo!

E, dando meia volta, saiu em pranto, com o filho nos braços. Eu acabei o ofício, dei a bênção final, e fui directo para a sacristia – naquele domingo não haveria confraternização com os fiéis, nem conversas inúteis. Naquele domingo eu estava diante de um dilema filosófico: eu tinha escolhido respeitar a instituição, e não as palavras nas quais a instituição é baseada.

Já estou velo, Deus pode levar-me a qualquer momento. Continuei fiel à minha religião, e acho que, apesar de todos os seus erros, está sinceramente a esforçar-se para se corrigir. Isto pode levar décadas, talvez séculos, mas um dia apenas o amor contará, a frase de Cristo: “Vinde a mim os oprimidos, e eu vos aliviarei.” Dediquei a minha vida inteira ao sacerdócio, e não me arrependo um segundo sequer dessa minha decisão. Mas em momentos como o daquele domingo, embora não duvidasse da fé, passei a duvidar dos homens.

Sei agora o que aconteceu com Athena, e pergunto-me; será que tudo começou ali, ou já estava na sua alma? Penso nas muitas Athenas e Lukás do mundo, que se divorciaram e que por causa disso já não podem receber o sacramento da Eucaristia, restando-lhe apenas contemplar o Cristo sofredor e crucificado e ouvir as Suas palavras – que nem sempre estão de acordo com as leis do Vaticano. Nalguns casos, essas pessoas afastam-se, mas a maioria continua a vir à missa aos domingos, por que é um hábito seu, mesmo conscientes de que o milagre da transmutação do pão e do vinho na carne e no sangue do Senhor lhes é proibido.

Imagino que, ao sair da Igreja, Athena tenha encontrado Jesus. E, a chorar, se tenha atirado para os seus braços, confusa, pedindo que lhe explicasse por que é que estava a ser obrigada a ficar do lado de fora só por causa de um papel assinado, uma coisa sem a mínima importância no plano espiritual, que só devia ter interesse para os cartórios e para as finanças.

E Jesus, ao olhar para Athena, possivelmente terá respondido:

- Repara, minha filha, eu também estou do lado de fora. Há muito tempo que eles não me deixam entrar ali.”

domingo, 9 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs.40 e 41

“(…) tal experiência, conhecida por “a possessão criativa pelo sagrado, acontece a todos os seres humanos, em maior ou menor escala. De repente, durante uma fracção de segundos, sentimos que toda a nossa vida está justificada, que os nossos pecados estão perdoados, que o amor é sempre mais forte e pode transformar-nos definitivamente. Mas também é nesse momento que temos medo. Entregar-se por completo ao amor, seja ele divino ou humano, significa renunciar a tudo – inclusive ao seu próprio bem-estar, ou à sua própria capacidade de tomar decisões. Significa amar, no mais profundo sentido da palavra. Na verdade, não queremos ser salvos da maneira que Deus escolheu para nos resgatar: queremos manter o absoluto controlo de todos os passos, ter plena consciência das nossas decisões, ser capaz de escolher o objecto da nossa devoção.

Com o amor não é assim – ele chega, instala-se, e passa a conduzir tudo. Só almas mesmo muito fortes se deixam levar (…).”

sábado, 8 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.36 e 37

“Cristo estava cercado de mendigos, prostitutas, cobradores de impostos, pescadores. Penso que com isso queria dizer que a centelha divina está na alma de todos, nunca se extingue. Quando fico em silêncio, ou quando estou muito agitada, sinto que estou a vibrar com o Universo inteiro. E passo a conhecer coisas que não conheço – como se fosse o próprio Deus que estivesse a guiar os meus passos. Há momentos em que sinto que tudo me está a ser revelado.

Mas imediatamente se corrigia:

- Isto está errado.

Athena vivia sempre entre dois mundos: o que sentia como verdadeiro e o que lhe era ensinado através da sua fé.

“Diante de mim havia duas estradas

Eu escolhi percorrer a estrada menos percorrida

E isso fez toda a diferença."

Robert Frost”

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

“Ai daqueles que procuram pastores, em vez de ansiarem pela liberdade! O encontro com a energia superior está ao alcance de qualquer um, mas está longe daqueles que transferem sua a responsabilidade para os outros. O nosso tempo nesta terra é sagrado, e devemos celebrar cada momento.”

“Ao cozinharmos lamentamo-nos da perda de tempo, quando podíamos estar a transformar amor em comida. Trabalhamos a pensar que é uma maldição divina, quando devíamos usar as nossas capacidades para obter prazer e espalhar a energia da Mãe.”

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos

Págs.166 e 167

“- (…) Isso não faz sentido nenhum. Como é possível que essa teoria seja ainda defendida?

- É justamente isso que Einstein pensava. O problema é que esta teoria, por muito bizarra que pareça, bate certo com todos os dados experimentais. Qualquer cientista sabe que, sempre que a matemática contradiz a intuição, a matemática tende a ganhar. Isso aconteceu, por exemplo, quando Copérnico disse que era a Terra que andava à volta do Sol e não o contrário, A intuição dizia que a Terra é que era o centro, uma vez que tudo parecia girar em torno da Terra. Perante o cepticismo de toda a gente, Copérnico apenas encontrou aliados entre os matemáticos, os quais com as suas equações, constataram que só a possibilidade de a Terra andar à volta do Sol concordava com a matemática. Sabemos hoje que a matemática estava certa. Com as teorias da relatividade foi a mesma coisa. Há muitos elementos dessa teoria que são contra-intuitivos, como ideias de que o tempo dilata e outras bizarrias do género, mas a verdade é que esses conceitos são aceites pelos cientistas porque condizem com a matemática e com as observações da realidade. (…) Mas Einstein não se conformou com esta ideia, por uma razão muito simples. É que a Teoria Quântica começou por não condizer com a Teoria da Relatividade. Isto é, uma é boa para compreender o Universo dos grandes objectos, e a outra é eficiente na explicação do universo dos átomos. Mas Einstein achava que o Universo não pode ser gerido por leis diferentes, umas deterministas para os grandes objectos e outras probabilísticas para os pequenos objectos. Tem de haver um único conjunto de regras. Começou assim a busca de uma teoria unificadora que apresentasse as forças fundamentais da natureza como manifestações de uma força única. As suas Teorias da Relatividade reduziam a uma única fórmula todas as leis que regem o espaço, o tempo e a gravidade. Com a nova teoria ele procurava reduzir a uma única fórmula os fenómenos da gravidade e do electromagnetismo. Ele acreditava que a força que faz mover o electrão à volta do núcleo é do mesmo tipo da que faz mover a Terra à volta do Sol. (…) Ele chamou-lhe a Teoria dos Campos Unificados. Era a sua versão da Teoria da Tudo.”

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos


Pág.166

“Mas Niels Bohr complicou a coisa e disse que o electrão passa pelos dois buracos ao mesmo tempo. (…) Ao escolher entre duas rotas, o electrão passa pelas duas em simultâneo (…) está nos dois sítios ao mesmo tempo! (…) se pusermos um electrão numa caixa dividida em dois lados, o electrão estará nos dois lados ao mesmo tempo em forma de onda. Quando espreitamos a caixa, a onda desfaz-se imediatamente e o electrão transforma-se em partícula num dos lados. Se não olharmos, o electrão permanecerá nos dois lados ao mesmo tempo sob a forma de onda. Mesmo que os dois lados sejam separados e colocados a milhares de anos-luz de distância um do outro, o electrão continuará nos dois lados ao mesmo tempo. Só quando espreitarmos para um dos lados é que o electrão decidirá qual o lado onde vai ficar. (…) O papel do observador foi estabelecido inicialmente pelo Princípio da Incerteza. Heisenberg concluiu que nunca poderemos saber com precisão e em simultâneo qual a posição e a velocidade de uma partícula devido á presença do observador. A teoria evoluiu até ao ponto de ter havido quem considerasse que o electrão só decide em que lugar está quando existe um observador.

- Isso não faz sentido nenhum…

- Foi o que disseram os outros cientistas, incluindo Einstein. Como o cálculo passou a ser probabilístico, Einstein declarou que Deus não jogava aos dados, isto é, a posição de uma partícula não podia estar dependente da posição de observadores e, sobretudo, de cálculos de probabilidade. A partícula ou está num sítio, ou está noutro, não pode estar nos dois ao mesmo tempo. A incredulidade foi tal, que houve até um outro físico chamado Schrodinger, que concebeu uma situação paradoxal para pôr a nu este absurdo. Ele imaginou que era colocado um gato numa caixa com um frasco fechado de cianeto. Um processo quântico poderia levar um martelo, com uma probabilidade de cinquenta por cento, a quebrar o frasco ou não. De acordo com a teoria quântica, os dois acontecimentos igualmente prováveis ocorreriam em simultâneo enquanto a caixa permanecesse encerrada., fazendo com que o gato estivesse simultaneamente vivo e morto, da mesma maneira que um electrão está simultaneamente nos dois lados da caixa enquanto não é observado.”

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos


Págs.164 e 165

“Descobriu-se que a matéria se manifesta ao mesmo tempo por partículas e por ondas. Tal como espaço e tempo ou energia e massa são duas faces da mesma moeda, ondas e partículas são as duas faces da matéria. Nos casos da física clássica e da Relatividade, a mecânica é determinista. Se, por exemplo, nós soubermos onde está a Lua, em que direcção ela circula e a que velocidade, nós seremos capazes de prever a sua evolução futura e passada. (…) É isto a mecânica. Consegue-se prever a evolução dos objectos, desde que se saiba a respectiva velocidade e posição. Tudo muito simples. Mas no mundo quântico, descobriu-se que as coisas funcionam de maneira diferente. Quando sabemos bem a posição de uma partícula, não conseguimos perceber qual a sua velocidade exacta. E quando conhecemos bem a velocidade, não podemos determinar a posição exacta. Chama-se a isso Princípio da Incerteza, uma ideia que foi formulada em 1927 por Werner Heizenberg. O Princípio da Incerteza estabelece que podemos saber com rigor a velocidade ou a posição de uma partícula, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo. (…) Eu posso saber qual a posição e velocidade da Lua, e assim sou capaz de prever todos os seus movimentos passados e futuros. Mas não tenho maneira de determinar com exactidão a posição e a velocidade de um electrão, pelo que não consigo prever os seus movimentos passados e futuros. É essa a incerteza. Para resolver isso, a mecânica quântica recorreu ao cálculo de probabilidades. Se um electrão tiver de escolher entre dois buracos por onde passar, há cinquenta por cento de probabilidades de o electrão passar pelo buraco da esquerda e outros cinquenta por cento pelo da direita.”

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos


Págs.162, 163 e 164

“Einstein (…) de repente deu com o nariz na Teoria Quântica. (…) A Física de Newton é adequada para explicar o nosso mundo quotidiano. (…) Os problemas desta Física Clássica só emergem quando estamos a lidar com aspectos que não fazem parte da nossa experiência diária, como por exemplo velocidades extremas ou o mundo das partículas. Para tratar os problemas das grandes massas e da grande velocidade, apareceram as duas teorias de Einstein, chamadas da Relatividade. E, para lidar com o mundo das partículas, surgiu a Teoria Quântica. (…) nasceu em 1900, na sequência de um trabalho de Mas Plank sobre a luz emitida por corpos quentes. Foi depois desenvolvida por Niels Bohr, que concebeu o mais conhecido modelo teórico dos átomos, aquele que tem os electrões a orbitar o núcleo da mesma maneira que os planetas orbitam o Sol. (…) alguns físicos concluíram que as partículas subatómicas podem ir do estado de energia A ao estado de energia B sem passarem pela transição entre esses dois estados. (…) Chama-se a isso um salto quântico. (…) Nós sabemos que as micropartículas dão saltos. Isso é consensual. O que se passa é que há quem ache que quando estamos a falar do mundo subatómico o espaço deixa de ser contínuo e torna-se granuloso. Dão-se saltos sem passar pelo espaço intermédio.”

domingo, 2 de maio de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos

Pág.162

“Faça de conta (…) que o espaço é um lençol esticado no ar entre nós os dois. Imagine que pomos uma bola de futebol no meio. O que é que acontece? O lençol curva-se em torno da bola (…) Se eu atirar um berlinde para o lençol, ele vai ser atraído para a bola de futebol, não vai? No Universo passa-se a mesma coisa. O Sol é tão grande que curva o espaço em torno de si. Se um objecto exterior se aproximar devagar, vai embater no Sol. Se um objecto se aproximar a uma certa velocidade, como a Terra começará a andar à volta do Sol, sem cair nele nem fugir dele. E se um objecto andar a muita velocidade, como um fotão de luz, ao aproximar-se do Sol, vai curvar um bocadinho a sua trajectória, mas conseguirá fugir e prosseguir a sua viagem. No fundo, é isto o que diz a Relatividade Geral. Todos os objectos distorcem o espaço e, quanto mais massa tiver um objecto, mais distorcerá o espaço em torno de si. Como o espaço e o tempo são duas faces da mesma moeda, um pouco como a energia e a matéria, isto significa que os objectos também distorcem o tempo. Quanto mais massa tiver um objecto, mais lento será o tempo perto de si.”

sábado, 1 de maio de 2010

A Fórmula de Deus – José Rodrigues dos Santos


Págs.159, 160, 161 e 162

“(…) a busca da Teoria de Tudo começou com a Teoria da Relatividade. Até Einstein, a física assentava no trabalho de Newton, que dava perfeita conta do recado na explicação do funcionamento do Universo tal como ele é percepcionado pelos seres humanos. Mas havia dois problemas relacionados com a luz que não se conseguia resolver. Um era saber por que razão um objecto aquecido emitia luz e o outro era perceber o valor constante da velocidade da luz. (…) Einstein concluiu, em 1905 a sua Teoria da Relatividade Restrita, onde estabeleceu uma ligação entre o espaço e o tempo, dizendo que ambos são relativos. Por exemplo, o tempo muda porque há movimento no espaço. A única coisa que não é relativa, mas absoluta, é a velocidade da luz. Ele previu que, a velocidades próximas da luz, o tempo abranda e as distâncias contraem-se. (…) se tudo é relativo, com excepção da velocidade da luz, então até a massa e a energia são relativas. Mais do que relativas, massa e energia são as duas faces de uma mesma moeda.

- Essa não é aquela famosa equação?

(…)

- Sim. Energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz.

- Se bem me lembro, essa é a equação que está por detrás das bombas atómicas.

- Exacto. Como você sabe, a velocidade da luz é enorme. O quadrado da velocidade da luz é um número tão grande que isso implica que uma minúscula porção de massa contém uma brutal quantidade de energia. (…) A única dificuldade, é transformar essa matéria em energia.

- Isso não tem a ver com a força forte que mantém unido o núcleo dos átomos?

(…)

- (…) energia e massa são as duas faces da mesma moeda. Isto significa que se pode transformar uma coisa na outra, ou seja, energia transformar-se em matéria e matéria em energia.

- Está a dizer que é possível fazer uma pedra a partir da energia?

- Sim, teoricamente isso é possível, embora a transformação de energia em massa seja algo que nós normalmente não observamos. Mas acontece. Por exemplo, se um objecto de aproximar da velocidade da luz, o tempo contrai-se e a sua massa aumenta. Nessa situação, e energia do movimento dá lugar à massa.

- Isso já alguma vez foi observado?

- Sim, no Acelerador de Partículas do CERN, na Suíça. Os electrões foram acelerados a tal velocidade que aumentaram quarenta mil vezes de massa. Há mesmo fotografias do rasto de protões, depois de choques (…).

- É, aliás, por isso que nenhum objecto pode atingir a velocidade da luz. Se o fizesse, a sua massa tornar-se-ia infinitamente grande, o que requereria uma energia infinita para movimentar esse objecto. Ora, isso não pode ser (…) Daí que se diga que a velocidade da luz é a velocidade limite do Universo. Nada a pode igualar, porque, se um corpo a igualasse, a sua massa tornar-se-ia infinitamente grande.

- Mas a luz é formada por quê?

- Por partículas chamadas fotões.

- E essas partículas não aumentam de massa quando andam á velocidade da luz?

- Aí é que está. Os fotões são partículas sem massa, encontram-se em estado de energia pura e nem sequer experimentam a passagem do tempo. Como andam à velocidade da luz, para eles o Universo é intemporal. Do ponto de vista dos fotões, o Universo nasce, cresce e morre no mesmo instante. (…) Einstein concluiu a Teoria da Relatividade Restrita em 1905, na qual explicava uma série de fenómenos físicos, mas não a gravidade. O problema é que a Relatividade Restrita entrou em conflito com a descrição clássica da gravidade e era preciso resolver isso. Newton acreditava que uma alteração repentina de massa implicava uma alteração instantânea da força da gravidade. Mas isso não pode ser, uma vez que tal requer que exista algo mais veloz que a luz. Suponhamos que o Sol explodia neste preciso momento. A Relatividade Restrita prevê que tal acontecimento só oito minutos depois será sentido na Terra, uma vez que esse é o tempo que a luz leva a fazer a viagem entre o Sol e a Terra. Mas Newton julgava que o efeito seria sentido instantaneamente. No exacto momento em que o Sol explodisse, a Terra sentiria o efeito desse acontecimento. Ora, isso não é possível dado que nada anda mais depressa do que a luz, não é? Para solucionar este e outros problemas, Enstein concluiu, em 1915, a Teoria da Relatividade Geral, que resolveu as questões da gravidade e estabeleceu que o espaço é curvado. Quanto mais massa tem um objecto, mais curvado é o espaço em torno dele e, consequentemente, maior é a força da gravidade que exerce. Por exemplo, o Sol exerce mais força de gravidade sobre um objecto do que a Terra porque dispõe de muito mais massa.”