segunda-feira, 10 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Págs de 53 a 58

“Reparei nela quando entrou para a missa de domingo, trazia como sempre o bebé ao colo. Eu sabia das dificuldades que estavam a atravessar, mas até àquela semana para mim tudo não passava de um desentendimento normal no seio de um casal, que eu esperava que fosse resolvido mais cedo ou mais tarde, já que ambos eram pessoas que irradiavam o Bem à sua volta.

Há um ano que não vinha tocar com a sua viola e louvar a Virgem na parte da manhã; dedicava-se a tratar de Viorel, que eu tive a honra de baptizar, embora não me lembre de nenhum santo com esse nome. Mas continuava a frequentar a missa todos os domingos, e conversávamos sempre no final, quando todos já se tinham ido embora. Dizia que eu era o seu único amigo; participámos juntos nas adorações divinas, mas agora precisava de partilhar comigo as dificuldades terrenas.

Amava Lukás mais do que qualquer homem que tinha conhecido; era o pai do seu filho, a pessoa que tinha escolhido para partilhar a sua vida, alguém que renunciara a tudo e que tivera coragem suficiente para construir uma família. Quando as crises começaram, ela tentou fazê-lo compreender que era passageiro, que precisava de se dedicar ao filho, mas que não tinha a mínima intenção de o transformar numa criança mimada; em breve, deixaria que ele enfrentasse sozinho certos desafios da vida. A partir de então, voltaria a ser a esposa e a mulher que ele tinha conhecido nos primeiros encontros, talvez até com mais intensidade, porque agora conhecia melhor os deveres e as responsabilidades da escolha que fizera. Mesmo assim, Lukás sentia-se rejeitado; ela tentava desesperadamente dividir-se entre os dois, mas era sempre obrigada a escolher – e nesses momentos, sem a menor sombra de dúvida, escolhia Viorel.

Com os meus parcos conhecimentos psicológicos, disse que não era a primeira vez que ouvia este género de conversa, e que os homens normalmente se sentem rejeitados numa situação como esta, mas rapidamente lhes passa (…). Numa destas conversas, Athena reconheceu que talvez se tivesse precipitado um pouco, o romantismo de ser mãe muito nova não lhe deixou ver com clareza os verdadeiros desafios que surgem depois do nascimento de um filho. Mas agora era tarde de mais para arrependimentos.

Chegou a perguntar-me se eu podia conversar com Lukás – que nunca aparecia na igreja, quer porque não acreditava em deus quer porque preferia aproveitar as manhãs de domingo para estar mais tempo com o filho. Eu prontifiquei-me a fazê-lo, desde que ele viesse por vontade própria. E quando Athena estava prestes a pedir-lhe este favor, a grande crise aconteceu, e o marido saiu de casa.

Aconselhei-a a ter paciência, mas ela estava profundamente magoada. Já tinha sido abandonada uma vez na infância, e todo o ódio que sentia pela sua mãe de sangue foi automaticamente transferido para Lukás – embora mais tarde, pelo que soube, tenham voltado a ficar bons amigos. Para Athena, romper os laços familiares era talvez o pecado mais grave que alguém podia cometer. Continuou a frequentar a igreja aos domingos, mas voltava logo para casa, já que não tinha com quem deixar o filho – o menino chorava muito durante a cerimónia, o que perturbava a concentração dos outros fiéis. Num dos raros momentos em que pudemos conversar, disse que estava a trabalhar num banco, que tinha alugado um apartamento, e que não me preocupasse; o “pai” (ela tinha deixado de dizer o nome do marido) estava a cumprir com as suas obrigações financeiras.

Até que chegou aquele fatídico domingo.

Eu sabia o que se tinha passado durante a semana – um dos paroquianos tinha-me contado. Pedi durante algumas noites que um anjo me inspirasse, que me dissesse se devia manter o meu compromisso com a Igreja ou o meu compromisso com os homens. Como o anjo não apareceu, entrei em contacto com o meu superior, e ele disse-me que a Igreja só conseguiu sobreviver porque foi sempre rígida com os seus dogmas – se tivesse aberto excepções, estávamos perdidos desde a Idade Média. Sabia exactamente o que ia acontecer, pensei em telefonar a Athena, mas não me tinha deixado o seu novo número.

Naquela manhã, as minhas mãos tremeram quando eu levantei a hóstia, ao consagrar o pão. Proferi as palavras que a tradição milenar me tinha transmitido, usando o poder passado de geração em geração pelos apóstolos. Mas, de imediato, o meu pensamento se voltou para aquela rapariga com o filho ao colo – uma espécie de Virgem Maria, o milagre da maternidade e do amor manifestados no abandono e na solidão – que acabara de entrar na fila como sempre fazia e que, a pouco e pouco, se aproximava para comungar.

Penso que grande parte da congregação ali presente sabia o que se estava a passar. E todos olharam para mim, à espera da minha reacção. Vi-me cercado de justos, pecadores, fariseus, sacerdotes do Sinédrio, apóstolos, discípulos, gente de boa e de má vontade.

Athena parou diante de mim e repetiu o mesmo gesto de sempre: fechou os olhos e abriu a boca para receber o corpo de Cristo.

O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mãos.

Ela abriu os olhos sem perceber o que se estava a passar.

- Depois conversamos – sussurrei.

Mas ela não se mexeu.

- Há pessoas atrás de ti na fila. Conversamos depois.

- O que está a acontecer? – todos os que estavam perto ouviram a sua perguntar.

- Depois conversamos.

- Porque é que não me dá a comunhão? Não vê que me está a humilhar à frente de toda a gente? Não basta tudo aquilo por que já passei?

- Athena, a Igreja proíbe que as pessoas divorciadas recebam o sacramento. Assinaste os papéis esta semana. Conversamos depois – insisti uma vez mais.

Como não se mexia, fiz menção para que a pessoa atrás dela passasse pelo lado. Continuei a dar a comunhão até que o último paroquiano a tivesse recebido. E foi então que, antes de voltar ao altar, ouvi aquela voz.

Já não era a voz da rapariga que cantava para adorar a Virgem, que conversava sobre os seus planos, que se comovia ao contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava ao partilhar as suas dificuldades do casamento. Era a voz de um animal ferido, humilhado, com o coração repleto de ódio.

- Pois maldito seja este lugar! – disse a voz. Malditos sejam aqueles que nunca ouviram a voz de Cristo, e que transformaram a sua mensagem numa construção de pedra. Pois Cristo disse: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Eu estou oprimida, ferida e não me deixam ir até Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: “Vinde a mim os que seguem as nossas regras e deixai os oprimidos de parte!”

Ouvi uma das mulheres na primeira fila dizer-lhe que se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava de ouvir. Voltei-me e fiquei diante dela, com a cabeça baixa – era a única coisa que podia fazer.

- Juro que nunca voltarei a pôr os pés numa igreja. Uma vez mais sou abandonada por uma família, e agora não tem a ver com dificuldades financeiras, ou imaturidade de quem casa cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta a uma mãe e a um filho! Vocês são iguais àqueles que não acolheram a Sagrada Família, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de um amigo!

E, dando meia volta, saiu em pranto, com o filho nos braços. Eu acabei o ofício, dei a bênção final, e fui directo para a sacristia – naquele domingo não haveria confraternização com os fiéis, nem conversas inúteis. Naquele domingo eu estava diante de um dilema filosófico: eu tinha escolhido respeitar a instituição, e não as palavras nas quais a instituição é baseada.

Já estou velo, Deus pode levar-me a qualquer momento. Continuei fiel à minha religião, e acho que, apesar de todos os seus erros, está sinceramente a esforçar-se para se corrigir. Isto pode levar décadas, talvez séculos, mas um dia apenas o amor contará, a frase de Cristo: “Vinde a mim os oprimidos, e eu vos aliviarei.” Dediquei a minha vida inteira ao sacerdócio, e não me arrependo um segundo sequer dessa minha decisão. Mas em momentos como o daquele domingo, embora não duvidasse da fé, passei a duvidar dos homens.

Sei agora o que aconteceu com Athena, e pergunto-me; será que tudo começou ali, ou já estava na sua alma? Penso nas muitas Athenas e Lukás do mundo, que se divorciaram e que por causa disso já não podem receber o sacramento da Eucaristia, restando-lhe apenas contemplar o Cristo sofredor e crucificado e ouvir as Suas palavras – que nem sempre estão de acordo com as leis do Vaticano. Nalguns casos, essas pessoas afastam-se, mas a maioria continua a vir à missa aos domingos, por que é um hábito seu, mesmo conscientes de que o milagre da transmutação do pão e do vinho na carne e no sangue do Senhor lhes é proibido.

Imagino que, ao sair da Igreja, Athena tenha encontrado Jesus. E, a chorar, se tenha atirado para os seus braços, confusa, pedindo que lhe explicasse por que é que estava a ser obrigada a ficar do lado de fora só por causa de um papel assinado, uma coisa sem a mínima importância no plano espiritual, que só devia ter interesse para os cartórios e para as finanças.

E Jesus, ao olhar para Athena, possivelmente terá respondido:

- Repara, minha filha, eu também estou do lado de fora. Há muito tempo que eles não me deixam entrar ali.”

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