quinta-feira, 20 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello

Pág.149

“E não me surpreende que cada vez mais pessoas se interessem pelas tradições pagãs. Porquê? Porque o Deus Pai é sempre associado ao rigor e à disciplina do culto. A Deusa Mãe, pelo contrário, mostra a importância do amor acima de todas as proibições e tabus que conhecemos.

O fenómeno não é novidade; sempre que a religião intensifica as suas normas, um grupo significativo de pessoas tende a ir em busca de mais liberdade através do contacto espiritual. Isto aconteceu durante a Idade Média, quando a Igreja Católica se limitava a criar impostos e a construir conventos luxuosos; como reacção, assistimos ao surgimento de um fenómeno chamado “feitiçaria”, que, apesar de reprimido por causa do seu carácter revolucionário, deixou raízes e tradições que conseguiram sobreviver durante todos estes séculos.

Nas tradições pagãs, o culto da natureza é mais importante que a reverência aos livros sagrados; a Deusa está em tudo, e tudo faz parte da Deusa. O mundo é apenas uma expressão da sua bondade. Existem muitos sistemas filosóficos – como o taoísmo ou o budismo – que eliminam a ideia da distinção entre o criador e a criatura. As pessoas já não tentam decifrar o mistério da vida, e sim fazer parte dele; também no taoísmo e no budismo, mesmo sem a figura feminina, o princípio central afirma que “tudo é uma só coisa.”

No culto da Grande Mãe, o que chamamos “pecado”, geralmente uma transgressão de códigos morais arbitrários, deixa de existir; o sexo e os costumes são mais livres, porque fazem parte da natureza, e não podem ser considerados como frutos do mal.

O novo paganismo mostra que o homem é capaz de viver sem uma religião instituída, e ao mesmo tempo continuar a busca espiritual para justificar a sua existência. Se Deus é mãe, então só é preciso reunir-se a adorá-la através de ritos que tentam satisfazer a sua alma feminina – como a dança, o fogo, a água, o ar, a terra, o canto, a música, as flores, a beleza.”

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