segunda-feira, 24 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.182 e 183

“Ninguém parecia dar muita importância ao assunto, até que encontrei François Shepka, um psicólogo indiano (…) que estava a começar a revolucionar as terapias actualmente em voga: segundo ele, esta história de voltar à infância para resolver os traumas nunca tinha levado o ser humano a lado nenhum – muitos dos problemas que já tinham sido superados ao longo da vida acabavam por regressar, e as pessoas adultas voltavam a culpar os seus pais pelos seus fracassos e pelas suas derrotas. (…) Disse que segundo um dos mais respeitados psicanalistas da História, o suíço Carl Gustav Jung, todos nós bebemos de uma mesma fonte. Chama-se “a alma do mundo”; embora tentemos ser indivíduos singulares uma parte da nossa memória é igual.

(…)

Jung costumava classificar o progresso individual em quatro etapas: a primeira era a Persona – a máscara que usamos todos os dias, para fingir quem somos. Acreditamos que o mundo depende de nós, que somos óptimos pais e que os nossos filhos não nos compreendem, que os patrões são injustos, que o sonho do ser humano é não ter de trabalhar (…). Muitas pessoas dão-se conta de que alguma coisa está errada nesta história: mas como não querem mudar absolutamente nada, acabam por afastar rapidamente o assunto das suas cabeças. Muito poucas tentam perceber o que é que está errado, acabando estas por encontrar a Sombra,

A Sombra é o nosso lado negro, que dita como devemos agir e comportar-nos. Quando tentamos livrar-nos da Persona, acendemos uma luz dentro de nós, e conseguimos ver as teias de aranha, a cobardia, a mesquinhez. A Sombra está ali para impedir o nosso progresso – e geralmente consegue, voltamos rapidamente a ser quem éramos, antes de duvidar. Contudo, alguns sobrevivem a este embate com as suas teias de aranha, dizendo: “Sim, tenho uma série de defeitos, mas sou digno, e quero ir adiante.”

Nesse momento, a Sombra desaparece, e entramos em contacto com a Alma.

Por alma, Jung não está a definir nada religioso; fala de um regresso à tal Alma do Mundo, fonte do conhecimento. Os instintos começam a tornar-se mais aguçados, as emoções são radicais, os sinais da vida são mais importantes do que a lógica, a percepção da realidade já não é tão rígida. Começamos a lidar com coisas às quais não estamos acostumados, passamos a reagir de maneira inesperada até para nós próprios. E descobrimos que se conseguirmos canalizar todo este jorro de energia contínua, vamos organizá-lo num centro muito sólido (…).”

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