quinta-feira, 27 de maio de 2010

Paulo Coelho – A Bruxa de Portobello


Págs.200 e 201

“(…) as mudanças só acontecem quando fazemos algo que vai contra, completamente contra tudo aquilo a que estamos acostumados.

(…)

Uma das coisas mais agressivas no ser humano é ir contra o que acha bonito, e vamos fazer isso hoje. Vamos dançar mal. Toda a gente.”

“(…) a melhor maneira de meditar, de entrar em contacto com a luz, era fazer tricô – que a minha mãe me ensinara quando eu era criança. Sabia contar os pontos, mexer as agulhas, criar belas coisas através da repetição e da harmonia. Um dia, o meu protector pediu-me para tricotar de uma maneira completamente irracional! Algo muito violento para mim, que tinha aprendido o trabalho com carinho, paciência e dedicação. Mesmo assim, ele insistiu que eu fizesse um péssimo trabalho.

Durante das horas achei aquilo ridículo, absurdo, a minha cabeça doía-me, mas não podia deixar que as agulhas guiassem as minhas mãos. Qualquer um de nós é capaz de fazer alguma coisa errada, porque é que me estava a pedir isto? Porque conhecia a minha obsessão pela geometria e pelas coisas perfeitas.

E, de repente, aconteceu; parei as agulhas, senti um vazio imenso, que foi preenchido por uma presença cálida, amorosa, companheira. À minha volta, tudo estava diferente, e senti vontade de dizer coisas que nunca ousaria no meu estado normal. Mas não perdi a consciência, sabia que era eu própria, embora, aceitemos o paradoxo, não fosse a pessoa com quem eu estivesse acostumada a conviver.

(…)

Depois de algum tempo, a alma desligou-se do corpo, foi aberto um espaço (…).

(…) Antiga, mas com uma aparência jovem. Sábia, mas não omnipotente. Especial, mas sem arrogância. A percepção mudou, e ela passou a ver as mesmas coisas que via quando era criança – os universos paralelos que povoam este mundo. Nesse momento, podemos ver não só o corpo físico, mas as emoções das pessoas. Dizem que os gatos têm o mesmo poder, e eu acredito.

(…)

Voltando ao meu tricô: usei este processo durante algum tempo até que consegui provocar esta presença sem artifício nenhum, já que a conhecia e que me estava a acostumar a ela. (…) uma vez que sabemos onde estão as Portas da Percepção, é fácil abrir e fechá-las, desde que nos habituemos ao nosso comportamento “estranho”.

E cabe-me acrescentar: o meu tricô ficou muito mais rápido e melhor, da mesma maneira que Athena passou a dançar com muito mais alma e ritmo depois de ter ousado quebrar essas barreiras.”

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