quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Escreva

Escrever aproxima-nos de Deus e do próximo. Se quiser compreender melhor o seu papel no mundo, escreva. (...) O simples facto de escrever ajuda-nos a organizar o pensamento e a ver com clareza o que nos cerca. Um papel e uma caneta operam milagres - curam dores, consolidam sonhos, levam e trazem a esperança perdida.



A palavra tem poder.



(Paulo Coelho, Maktub)

sábado, 26 de setembro de 2009

Guerreiro

Os Guerreiros da Luz, com frequência, interrogam-se sobre o que fazem aqui.


Muitas vezes acham que as suas vidas não fazem sentido.
Por isso, são Guerreiros da Luz.

Porque interrogam.

Porque continuam a procurar um sentido,


E acabarão por encontrá-lo.


(Manual do Guerreiro da Luz, Paulo Coelho)


Escorregar


Em vez de amaldiçoar o lugar onde caiu, devia procurar aquilo que o fez escorregar.


(Maktub, Paulo Coelho)


É apenas uma questão de auto-controlo, serenidade e inteligência.

Medo e amor


Quem ama venceu o mundo, não tem medo de perder nada.

O verdadeiro amor é um acto de entrega total.


(Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei, Paulo Coelho)


Quem ama tem tudo o que poderia desejar... a alma repleta de amor nada deseja, está num estado de perfeita harmonia e equilíbrio.


Nada tem a perder. Porque o amor, uma vez mobilizado, jamais se perde. O medo deixa de fazer qualquer sentido.

Salvação


No preciso momento que partimos em busca do amor, também ele parte ao nosso encontro.

E salva-nos.


( Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei, Paulo Coelho)


O amor é a mais transcendente de todas as experiências meditativas... e não precisa de uma cara metade ou de alguém maravilhoso para se manifestar... ele existe denntro de nós, para senti-lo apenas precisamos procurá-lo dentro de nós... tudo o que existe neste mundo merece o nosso amor...

Perspectiva


Quando todos os dias ficam iguais, é porque as pessoas deixaram de se aperceber das coisas boas que surgem nas suas vidas.


(Paulo Coelho, O Alquimista)


E todos os dias surgem coisas boas nas nossas vidas... mesmo quando tudo parece ruir... eu costumo fazer, diariamente, uma pequena lista de tudo de bom que me acontece num dia, desde a mais ínfima coisa, até à mais espectacular.. creio ser uma forma de estar mais atenta quando novas coisas boas voltarem a suceder... dando a magnífica sensação de que estamos a "atrair" coisas boas!! É tudo uma questão de... perspectiva.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Vultos negros


Todos temos vultos negros dentro de nós. Que carecem de neutralização, mas também de compreensão. Os vultos negros não são se não facetas nossas pedindo para serem trazidas para a luz, facetas que tememos por sobrevalorizar e temer a opinião alheia... para neutralizar os vultos negros é preciso deixá-los ver... para que se possam compreender... e depois de compreendidos percebemos que, na verdade, afinal, não eram esses monstros assustadores que pareciam ser.

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A certeza e a semente


A certeza e a semente... são coisas que precisam ser constantemente alimentadas... e não por falsas crenças, que apenas as levam à ruína mais rapidamente... mas pelos argumentos que nos dá a própria realidade, tão mais firmes e sólidos quanto mais eficaz a nossa capacidade de ver essa realidade de forma cada vez mais profunda... e de percebermos que os caminhos estão lá sempre, podem é estar encobertos...

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Auto-aceitação e liberdade


Nós próprios costumamos ser os artesãos da gaiola em que nos enfiamos dentro; no que à liberdade diz respeito, apenas uma barra de grade é suficiente para nos servir de limite: os sentimentos alheios. Tudo se pode fazer e dizer, assim tenhamos a capacidade para compreender os outros e saber de que forma devemos agir; não é fácil, mas tente-se, pelo menos.

De facto, o medo é o que mais nos aprisiona e é o que nos impede de pensar convenientemente, porque também nos impede de sentir convenientemente.

Confiar em nós mesmos é a melhor forma de não sentir medo e essa confiança, essa atitude advém da compreensão que temos de nós e da aceitação que de nós fazemos.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Vazio, desejos e sabedoria


O vazio foi feito para que pudesse ser preenchido. E urge harmonizar as nossas energias para que os nossos desejos e o que é possível de ajustem, sem haver dissonâncias... se bem que o que desejamos acaba por ser sempre possível de alguma forma... separa-nos dos nossos desejos o tempo e a sabedoria, que é a forma mais correcta e segura de chegarmos onde desejamos.

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What you give is what you get


Infelizmente, ou talvez não, a inteligência e a capacidade de criação vêm geralmente também acompanhadas da capacidade de destruição... pelo que representam uma responsabilidade acrescida; que tantas e tantas vezes não sabemos utilizar.

Aquilo que damos é aquilo que acabaremos a receber, e consciência, energia, existe em todo o lado, até na matéria, muito mais em animais e mesmo em plantas. Se for energia negativa a que emanamos, a que recebermos será da mesma ordem.

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Consciência e aprendizagem


É preciso manter a atenção nas nossas atitudes, pois o que semeamos hoje, colhemos amanhã. Fazer o nosso melhor é o essencial, mas por vezes não chega, é preciso trabalhar activamente para levar a nossa consciência às nossas atitudes, que são invariavelmente resultado do que somos. É por isso que devemos ter plena consciência de quem somos e aumentar essa mesma consciência leva a uma melhoria da qualidade das nossas acções, porque essa consciência também leva a que limemos as nossas arestas, sem prescindirmos da nossa essência.

Observarmos as consequências das nossas acções e tirarmos daí os devidos ensinamentos, é um acto de profunda sabedoria e meritório, que nos leva a, progressivamente, irmos melhorando essas mesmas atitudes.

A capacidade de regeneração do mundo não pode ser uma desculpa para nos permitir fazermos o que quisermos sem pensar em consequências. O verdadeiro arrependimento reside em retirar, precisamente, das situações a devida aprendizagem, a devida consciência e em compreender de que forma, num momento seguinte poderemos fazer diferente para melhor.

E essa atitude pode ser de tal forma nobre que faça ter valido a pena cometer o erro.

E então o erro dissipa-se e então não existe necessidade de rancor, o perdão torna-se a reacção óbvia; e então o erro deixa de ser erro.

Aprender com os erros é o mais sensato a fazer quando não se conseguem evitar; e evitar errar é coisa que não se deve fazer coibindo-nos de agir, mas agindo com sabedoria.

Não vejo a nossa jornada como uma sequência de ciladas e oportunidades, creio tratarem-se todas de oportunidades, apenas umas mais difíceis de compreender do que outras.

Os "erros" não devem estar enterrados, mas sim bem presentes, pois são fontes extremamente fecundas de aprendizagem e podem ser aproveitados por imenso tempo, pela vida fora.

Quanto aos acertos... são apenas menos erros do que os erros! :)

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domingo, 13 de setembro de 2009

Pecado #2: Preguiça

A preguiça: um dos meus pecados favoritos!! Não que eu seja preguiçosa, talvez por isso me agrade tanto a preguiça; ando sempre de um lado para o outro, cheia de mil coisas para fazer em mente, cheia de ideias que me vão surgindo de coisas que gostaria de fazer, desde as mais simples às mais complexas. A falta de tempo foi sempre, para mim, uma constante, uma espécie de nó no pescoço. Não sei que raio faço ao tempo, que consigo queimá-lo com extrema eficácia. Ter tempo é, para mim, sinónimo de grande liberdade. Acho que jamais irei compreender quando as pessoas dizem que não sabem o que fazer ao tempo e que os dias se arrastam. Creio que conheço apenas esta sensação em circunstâncias de extrema ansiedade, em que não consigo dar andamento aos meus projectos pessoais. Desta forma, sinto-me sempre um pouco tensa, porque a minha mente fervilha sempre com mil ideias de coisas para fazer; tensão contra a qual procuro lutar de forma pacífica e tranquila, pois sei que calma e tranquilidade não são sinónimos de preguiça; muito pelo contrário. Creio que, quanto mais harmonioso estiver o nosso interior, mais eficazes nos tornamos ao nível das actividades exteriores que realizamos. Temos mais facilidade em concentrar-nos naquilo que estamos a fazer cá fora, pois o nosso interior está tranquilo e não exige gasto de energia nem que a nossa atenção se centre em conflitos internos. Claro que a maioria das vezes que isto sucede, é porque as pessoas calam esses mesmos conflitos recalcando-os, reprimindo-os, negando-os. Ora, isso é sinónimo de atirar com o lixo para baixo do tapete. Pode não se ver, mas está lá e mais tarde ou mais cedo, começa a cheirar mal. Claro que se for em pequena quantidade, não haverá grande problema; a questão é quando relegamos para segundo plano, remetendo para o subconsciente assuntos importantes que poderíamos perfeitamente resolver se nos déssemos ao trabalho de pensar honestamente e de olhar para nós mesmos sem medo daquilo que poderemos ver. Os nossos conflitos negados e recalcados, são como uma camada de solo que vai descendo sob o peso da manta morta e dos solos mais jovens. Fica lá no fundo, mas é determinante, por exemplo, para o tipo de vegetação que cresce cá ao cimo, entre outras coisas essenciais. Além disso, o ciclo geológico é verdadeiramente demorado pelo que, nesse aspecto, não é um bom exemplo, mas com os nossos recalcamentos sucede exactamente o mesmo: chega sempre o dia em que vêm ao de cima, e podem muito bem vir sob a forma lava, através de uma erupção vulcânica.

Os conflitos devem ser sanados, pensados, resolvidos. Por isso é bom e interessante falarmos aos outros dos nossos problemas, expô-los ao mundo, sem medo do que os outros poderão pensar ou que alguém se aproveite das nossas fragilidades. Expôr os nossos conflitos internos ao mundo, de uma forma controlada e pacífica e assumindo que os temos, é uma forma de contribuir para os resolver, pois é também uma forma de propiciar a que haja troca de ideias e de incentivar os demais a fazer o mesmo e a assumirem-se como são. Assumir-nos como somos, compreender que temos o direito a ser quem somos e como somos é a chave para a tranquilidade interior. Tal como li algures, num mundo tão grande, tão cheio de coisas, não haveremos nós de ter lugar? Claro que sim, há lugar para toda a gente e para todas as diferenças, cabe-nos a nós construir um mundo ajustado a essa diversidade interior. Claro que, contudo e como tudo, se nós próprios tivermos a coragem de procurarmos esse auto-conhecimento, essa compreensão de nós mesmos, acabamos também por ter mais facilidade em adaptar-nos ao mundo; é um processo recíproco. Quando nos amamos como somos, o mundo devolve-nos na mesma moeda. Eu uma vez disse à minha mãe uma coisa que não deixa de ser verdade: este mundo é um grande e gigantesco bluff, em que basta por vezes convencermo-nos de que somos realmente bons, para sermos tidos como tal, mesmo que observando e examinando as coisas mais ao pormenor se veja que não é tanto assim. Claro que falta acrescentar a esta teoria que essa mesma postura só tem condições de se sustentar por um tempo limitado; pois uma crença precisa de reforço mais ou menos permanente para perdurar no tempo.

Pensar, reflectir, ser honesto consigo próprio, saber amar-se como se é, assumir-se como se é, é a chave para acalmar conflitos internos, deixando a mente mais liberta para se concentrar em outras actividades e não em estar constantemente a ser puxada pelos chamados pensamentos parasitas, quase sempre oriundos de grandes ou pequenos conflitos internos com que a nossa mente se debate a todo instante. Cada estímulo que recebemos causa uma pequena desestabilização interior; é essa a nossa natureza. Para conseguir paz interior, é, portanto, essencial dedicar algum tempo diário ou semanal, para reflectirmos sobre nós mesmos e sobre as nossas atitudes. É como se o nosso armazém estivesse constantemente a receber novas mercadorias e tivéssemos de parar de vez em quando para lhe dar uma grande arrumação, se não deixamos de por lá conseguir transitar, aceder às mercadorias e principalmente, perdemos a capacidade de encaixar novas mercadorias, isto é, aprender.

Quando estamos tranquilos por dentro, a atenção centra-se mais eficazmente nas tarefas exteriores; e falo aqui de uma verdadeira tranquilidade interior, daquela que é resolvida, eventualmente até, resultado de uma sublimação, afinal de contas é para isso mesmo que serve a arte. Não falo da tranquilidade aparente que até nos deixa fazer as coisas como deve ser, mas que apenas esconde muito lixo em baixo do tapete; é, aliás, nesse mesmo lixo que alguma da nossa agressividade tem origem.

Para mim, creio que a preguiça é, muitas vezes, sinónimo de desarrumação interna; não conseguimos mover-nos, a energia não flui, é preciso muito esforço para fazer pouca coisa. Claro que cada um de nós tem os seus conflitos, sendo que a maioria deles tem origem kármica e a meditação e a elevação da consciência ajudam sempre a compreendê-los e assim resolvê-los. Claro que os conflitos de uns são mais fáceis de resolver do que os conflitos de outros; também isso encontra explicações lá mais atrás.

A preguiça pode também ser uma reacção a quem como eu está constantemente a ser bombardeada por ideias e não lhes consegue dar vazão. É tanto o trabalho que simplesmente se desiste de arrumar seja o que for. Mas eu lá vou tentando meter ordem na barafunda e lá vou conseguindo fazer algumas coisitas. Claro que o resultado é quase oposto ao da preguiça; um estado de permanente agitação ao nível das ideias, mas por vezes tem resultados semelhantes aos da referida preguiça, uma vez que para dar vazão a tudo isto me esqueço de certas coisas, ou pelo menos, não lhes dou valor, coisas consideradas essenciais pelo senso comum!

Desta forma, acolho com alguma satisfação a preguiça que eu considero saudável e resultado de um alternar saudável de energias: aquela vontade, incapacidade até de fazer seja o que for de útil, porque simplesmente nos últimos dias se caminhou a uma velocidade estonteante; se bem que por vezes é aflitivo, sobretudo quando contávamos fazer alguma coisa importante e a preguiça simplesmente não nos deixa!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Perdidos


Perdidos andamos todos um pouco; faz parte da nossa essência de ser humano andar perdido. O que pode fazer a diferença é procurarmos de forma activa e empenhada encontrar-nos, com a percepção de que jamais nos encontraremos totalmente, mas o que interessa chegarmos cada vez mais perto (como conseguimos, se o ponto de chegada não existe? – mas existe a percepção do estádio seguinte; o ponto de chegada existe, dentro de nós, para nos ajudar a orientar-nos). É por isso que a caminhada é mais importante que o ponto de chegada, mas também não podemos dispensar este último, sem o sobrevalorizar.

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Acomodação à dor


Acomodar-nos à dor é o maior dos erros que se pode cometer; a dor não leva ninguém a lado nenhum. A inteligência e a consciência são as maiores "armas" de que dispomos contra ela. Há que agir, portanto, de uma maneira preventiva, estimulando essas capacidades e não fomentando a dor. Curiosamente, não fomentar a dor não é escapar-lhe a sete pés; é simplesmente, deixá-la fluir, não lhe oferecer resistência, vivênciá-la até que se esgote. Depois estaremos prontos para lhe reagir, recorrendo à inteligência e à consciência. A nossa maneira de ver: os nossos preconceitos de estimação. Vale a pena agarrarmo-nos a eles quando foram muito trabalhados e são devidamente mantidos em aberto, para quando existe uma oportunidade de expansão, esta não ser desperdiçada. Mas atenção... "agarrar", mas sem posse!!


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domingo, 6 de setembro de 2009

Fúria, preconceitos e aconchego da alma


A fúria; um sentimento interessante! Mas como todos os sentimentos muito intensos, é interessante prolongá-los diminuindo um pouco a sua intensidade, para podermos tirar melhor partido da energia que transportam consigo. Uma energia muito interessante em termos de nos fazer progredir. Etiquetas: algo sem o qual não conseguiríamos organizar o mundo, mas que, da mesma forma que nos permite transitar nele, também nos limita. É interessante procurar, portanto, focalizar a nossa atenção nas ideias que formulamos acerca do mundo, questioná-las com frequência, deixá-las alargar-se, crescer, alterar-se, caso se justifique. Mas o mais difícil é mesmo ter consciência dessas mesmas ideias, coisa que muitas vezes não possuímos. Um momento que fica cá dentro numa certa altura, jamais nos deixa, pelo que é bom quando tentamos resolver um conflito e tirar dele algum partido.

Quando tudo derrete, a alma aconchega-se... percebe que precisa de muito pouco para ser feliz e define claramente aquilo de que necessita para a sua próxima etapa. Não perdemos, porque a posse é uma ilusão... não se pode perder aquilo que se não tem... por vezes, somos nós que nos expulsamos a nós mesmos sem dar por isso... é sempre bom falar-se, seja do que for... uma boa conversa é uma excelente forma de silenciar conflitos. Nunca se fala em vão; há sempre um ouvido à escuta... nem que seja o da nossa própria consciência e esse é o mais importante!
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Partilha


É interessante como devem existir poucas sensações tão libertadoras como a partilha com aqueles que amamos, já que a partilha leva à fusão, a um dissolver libertador do eu, que sucede de forma tanto mais profunda quanto maior for a consciência que temos do eu. Quando a nossa alma se encontra saciada e em equilíbrio, o amor que contém em si transborda para os demais, gerando um ciclo, pois quanto mais amor damos, mais amor recebemos. É, de facto assim que sucede, embora certos ciclos possam ser de tal forma amplos e lentos que olhar apenas para uma existência ou para um estado de consciência, pode não ser suficiente para abarcá-los inteiros, mas mais uma vez, isso pode ser trabalhado, trabalhando a nossa consciência. Aprofundando a nossa consciência, indo mais ao fundo, torna mais perceptível o que está à superfície, aprimora a nossa visão do global.

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Kun Long


O "pecado" tem a ver não com a acção que é praticada, mas com quem a pratica; como dizem os budistas, com o "kun long" de quem a pratica. Esta é uma expressão utilizada para designar o estado da alma de alguém. Lembro-me de ler um livro do Dalai Lama em que ele referia a dificuldade em traduzir essa expressão para inglês ou qualquer língua ocidental, uma vez que não existe nenhuma expressão equivalente. Nem culturalmente, nem em termos de religião, olhamos a alma como algo que pode ser trabalhado e melhorado, como algo cujo estado mereça ser avaliado. A qualidade de uma acção depende, precisamente, do "kun long" da pessoa que o pratica e não da acção em si, isoladamente.

A qualidade de uma acção, depende do estado da alma de uma pessoa; tal como eu explico no post, se a minha alma estiver trabalhada no sentido do amor e da compaixão, então uma acção potencialmente negativa, como a mentira, por exemplo, pode vir a ter um resultado positivo; assim como a honestidade, praticada por uma alma cujo "kun long" é negativo, pode dar um mau resultado. Claro que as coisas não são tão simples como isto; o estado da alma de uma pessoa depende de um número enorme de variáveis e avaliar se o resultado de uma acção é negativo ou positivo pode não ser possível a curto prazo.

Pesquisei um pouco e encontrei um blog onde falam precisamente do livro onde aprendi este termo, que jamais esqueci. Ao que parece, quem escreve este post neste blog é alguém cuja expressão revolucionou tanto a percepção das coisas quanto a mim, pelo entusiasmo que parece revelar. De facto, levar esta expressão em conta no nosso entendimento do mundo, pelo menos a mim, ajuda-me bastante. Passo a transcrever alguns trechos mais interessantes do post onde, por sua vez, é também transcrito o trecho do livro que fala dessa mesma expressão: "Leio "Uma ética para o novo milênio", escrito pelo Dalai-Lama. Logo nas primeiras páginas me delicio com os ensinamentos do Mestre quando ele aborda a expressão tibetana kun long. Penso então em compartilhar tal conhecimento com as pessoas, antes mesmo de prosseguir a leitura da obra. Tenho o hábito de extrair de minhas leituras textos que me levam à reflexão e a mudanças. São textos dessa natureza que alicerçam este blog.

Há em mim o desejo de levar o outro à introspecção, a rever comportamentos indesejáveis e aprender a cultivar um estado de espírito sempre positivo, tentando ser o mais útil possível aos outros. Ao criar o seu universo com base no entendimento e na tolerância, o homem é capaz de experimentar a paz. Vejamos com atenção o que o Dalai-Lama ensina em termos de transformar nossos corações e mentes para nos tornarmos pessoas melhores. Vamos imaginar uma situação em que nos envolvemos em um desentendimento com um membro de nossa família. A maneira como lidamos com a atmosfera pesada que se instala vai depender em grande parte daquilo que inspira nossas ações no momento – em outras palavras, nosso kun long. Quanto menos calmos ficarmos, maior a probabilidade de reagirmos negativamente, com palavras ásperas, de dizermos ou fazermos coisas de que mais tarde nos arrependeremos amargamente, mesmo que os nossos sentimentos de afeto por aquela pessoa sejam profundos. Em tibetano, a expressão que caracteriza o que é mais importante para determinar o valor ético de uma ação é o kun long do indivíduo. (...) kun long é compreendido como aquilo que, de certo modo, motiva ou inspira nossas ações – tanto as que praticamos deliberadamente como as que são involuntárias. Logo, essa expressão indica o estado geral do coração e da mente do indivíduo. Quando esse estado é sadio, deduz-se que nossas ações serão (eticamente) sadias. (...) Imaginemos ainda uma situação em que incomodamos alguém ligeiramente, como, por exemplo, esbarrar sem querer em uma pessoa na rua e ela gritar que devemos andar com mais cuidado. Há uma possibilidade maior de não darmos importância a isso se nossa disposição (kun long) for sadia, se nossos corações estiverem plenos de compaixão – um sentimento que encerra compreensão e ternura -, do que se estivermos sob a influência de emoções negativas. Quando a força motivadora de nossas ações é sadia, nossos atos tendem automaticamente a contribuir para o bem-estar dos outros. São, portanto, forçosamente éticos. E quando isso se torna o nosso estado habitual, a probabilidade de reagirmos mal quando provocados é menor. Se perdermos a paciência, será uma explosão desprovida de qualquer traço de rancor ou ódio."

Continuando a transcrever a opinião do autor do post: "Portanto, na opinião do Dalai-Lama, o objetivo da prática espiritual e, consequentemente, da prática da ética é transformar e aperfeiçoar o kun long. É assim que nos tornamos pessoas melhores."Descobrimos que, à medida que conseguimos transformar nossos corações e mentes cultivando qualidades espirituais, passamos a ser mais capazes de lidar com as adversidades e aumentamos as probabilidades de nossas ações serem eticamente sadias", diz o Dalai-Lama. Assim, ele prossegue, se permitirem citar meu próprio caso como exemplo, essa maneira de compreender a ética significa que, ao procurar sempre cultivar um estado de espírito positivo ou sadio, tento ser o mais útil possível aos outros. O Dalai-Lama revela que é mais fácil compreender que o estado geral do coração e da mente – ou motivação – de uma pessoa no momento de uma ação é, em geral, a chave para determinar a qualidade ética dessa ação se considerarmos como nossas ações são afetadas quando estamos sob o poder de fortes emoções e pensamentos negativos, como o ódio e a raiva. Nesse momento, diz o Mestre, nossa mente e nosso coração estão conturbados, o que nos faz não só perder o senso de percepção e perspectiva como também não enxergar o provável impacto de nossas ações sobre os outros. "Podemos chegar a ficar aturdidos a ponto de ignorar os outros e seu direito à felicidade. Em tais circunstâncias, nossas ações – isto, nossos atos, palavras, pensamentos, omissões e desejos – serão certamente nocivas à felicidade dos outros, não importando quais tenham sido nossas intenções para com os outros ou se nossas ações foram intencionais ou não", considera o Dalai-Lama." Pesquisei aqui.

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sábado, 5 de setembro de 2009

Somos fonte inesgotável de amor


Procura sempre o carinho de que necessitas dentro de ti, pois lá existe uma fonte inesgotável de energia positiva de amor!! Não esqueças; para recebermos, devemos dar primeiro!! E ao darmos, jamais nos esgotamos; existe essa fonte inesgotável dentro de nós. Mesmo que não obtenhamos o resultado dessa dádiva no próprio momento, o amor que enviamos, acaba por retornar sempre a nós...

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Felicidade ou loucura?


O facto de as coisas nos parecerem boas ou más tem mais a ver com a nossa forma de as encarar, do que com as próprias coisas em si. É claro que há coisas, no limite, que são tão más (bloqueantes) que quase toda a gente as toma como tal. Há outras que são tão maravilhosas, que é difícil olhá-las como não sendo. Mas por mais que uma coisa se apresente, à partida, como má, ou boa, jamais reunirá unanimidade. Aquilo que numas culturas é considerado bom, noutras é considerado mau. Aquilo que umas pessoas sentem como favorável, outras vivenciam como desfavorável. Existem diversas condicionantes internas para que isso suceda dessa maneira. Temos muito em comum pelo simples facto de sermos seres humanos, e são precisamente estas diferenças que reforçam essa unidade.

Curioso referires a felicidade como a forma de estar que permite ouvir o nosso interior; um estado de gratidão, um estado que permite compreender o que a vida nos dá e não rejeitar; mas procurar aceitar, por mais difícil que esta atitude possa parecer. Só o silêncio provocado pela tranquilidade de um estado de felicidade pode levar-nos a escutar com qualidade o nosso interior. Essa postura abre portas a que se possa aprofundar o auto-conhecimento, de que eu tanto falo; aprofundamento este que se consegue através da meditação

O auto-conhecimento que é a pedra basilar de todo o conhecimento; um bom auto-conhecimento é a base de sustentação para uma mente bem estruturada, sem fragilidades, menos susceptível à dor e ao sofrimento, uma vez que compreendendo-nos e ao nosso universo, compreenderemos melhor o Universo que nos rodeia.

De facto, a ideia de sermos permanentemente felizes é controversa: pode parecer que não temos sensibilidade aos problemas, que não nos atingem as agruras da vida. De facto, não só não é assim, como é exactamente ao contrário. Uma mente meditativa, é uma mente extraordinariamente atenta e sensível, que sente cada pormenor da realidade de forma ainda mais ampliada do que, eventualmente, outras mentes; a questão não reside no sentir ou não, mas sim na forma de reagir. Se estivermos confiantes, em paz, felizes, iremos reagir melhor a acontecimentos menos favoráveis.

É preciso, contudo, ter cuidado com a questão das "pessoas vulgares". No nosso dia-a-dia, existem muitas formas de praticar meditação; o que hoje vemos, o que hoje colhemos é resultado de uma sucessão de estados de consciência em diversos contextos. Há pessoas que possuem um enorme potencial espiritual e não têm disso consciência e nunca praticaram meditação de forma consciente.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Amor, Liberdade e Solidão, Osho - Iluminação


Pág.8, Prefácio

“Sócrates tem razão: quando se conhece o amor, conhece-se a verdade, porque ambos são dois nomes para uma mesma experiência. E, se nunca conheceu a verdade, lembre-se de que nunca conheceu o amor.”

Uma atitude com base no amor, com base numa atitude positiva, na compaixão, por parte de alguém com um espírito trabalhado, consciente, leva a uma maior e mais ordenada expansão da consciência, logo a uma maior proximidade da "verdade"; essa que une o todo, essa de onde viémos, que possuímos em nós, e para onde caminhamos. Este excerto diz-nos: "se nunca conheceu a verdade, nunca conheceu o amor", mas eu diria, se nunca conheceu o amor, nunca conheceu a verdade, ou melhor, não se está a aproximar dela. E o que é o amor? Creio que é energia pura. Consciência pura. Quanto mais conscientes, quanto mais aprimorada a nossa mente, maior a capacidade de amar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Virtude #1: Temperança

"A temperança (...) é uma das virtudes ditas universais, (...) propostas pelo cristianismo. Temperança significa equilibrar, colocar sob limites, "moderar a atracção dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporcionar o equilíbrio no uso dos bens criados" (...). Essa virtude serve para controlar o pecado da gula. (...)" Daqui.

"Ela é o freio da nossa alma. A temperança é a virtude pela qual usamos com moderação dos bens temporais, quer eles sejam comida, bebida, sono, diversão, sexo, conforto, etc. Ela ensina-nos a usar essas coisas na hora certa, no tempo certo, na quantidade adequada. Ela ensina que certos actos são reservados a certas situações." Adaptado daqui.

A temperança; de facto, quanto a mim, representa sobretudo, uma forma segura de se estar. Sem excessos, não há riscos. Representa o equilíbrio; mas se num Universo de transformações, o equilíbrio é tão difícil de atingir e, uma vez atingido, é tão difícil de manter, então talvez seja porque temperança seja algo a ser perseguido permanentemente, mas não encontrado frequentemente; ou, pelo menos, seja algo que subjaz às nossas atitudes e decisões, algo que se deve fomentar por forma a tornar mais segura a atitude oposta, não sendo um estado desejável por si só. O equilíbrio traz paz, clareza de pensamento, tranquilidade. De facto, é isso que a palavra e as imagens associadas à temperança me inspiram; tudo condições essenciais, que facilitam a caminhada da evolução. Mas se permanecêssemos simplesmente em equilíbrio, jamais evoluiríamos. É uma virtude essencial, mas não suficiente. Tem de existir, mas não chega; ao mesmo tempo que passar à etapa seguinte (desequilíbrio) sem que essa virtude esteja presente, é o mesmo que cultivar a queda.

Penso na virtude da temperança como algo básico, fundamental; virtude sem a noção da qual não conseguiremos prosseguir no desequilíbrio habitual em que vivemos com um mínimo de segurança em termos da nossa conduta. Talvez por isso a temperança seja considerada como uma das 4 virtudes "cardinais" - aquelas ao redor das quais giram todas as outras. De facto, a temperança é como a água que bebemos, o ar que respiramos: tem de lá estar, se não, nada funciona. O que não significa que vivamos as nossas vidas apenas bebendo água e respirando. A ideia tem de lá estar, tem de existir, deve ser pela ideia do equilíbrio que temos de nos reger. Mas não deixa de representar uma paragem para respirar, um momento de pausa. É preciso prosseguir.

Nenhum prazer nos é negado se a temperança estiver presente. Tudo neste mundo existe por algum motivo e, se existe, é porque é necessário que disso se tome consciência, é necessário que se compreenda e a melhor forma de compreender é usufruir. Usufruir, contudo, depois de uma sólida consciência de nós mesmos; a sabedoria é como uma casa: tem de ter uma ordem pela qual é construída, ou jamais chegará sequer a poder chamar-se casa. Numa casa, não podemos começar a construir o telhado sem antes termos boas fundações; e se fizermos um grande e belo telhado, ele certamente não se sustentará se as fundações da casa forem frágeis. Assim é um ser humano com a sua sabedoria; se procuro experienciar realidades muito distantes da minha, sem ter antes uma boa consciência das realidades mais próximas, terei certamente dificuldades e muita energia bloqueada de permeio. Por isso, antes de mais (e se virmos, já naturalmente existe uma tendência para que as coisas se façam deste modo), há que ter consciência do nosso próprio corpo e da nossa própria mente, assim como dos nossos processos psíquicos, antes de pensarmos em ter uma boa relação com os outros. Se nos é dada esta máquina que é o nosso corpo e se é ele que serve de sustentação à nossa consciência, então para ampliarmos essa mesma consciência, talvez devamos começar por fazer do nosso corpo, e até dos processos psicológicos resultantes da morfologia da nossa mente, objectos dessa mesma consciência. Eles são o que temos antes de tudo o resto; então é pela consciência deles que deve começar a consciência de tudo o resto. É a consciência eles que constitui as nossas fundações. Porque a sabedoria é como uma casa e a casa tem de ter alicerces fortes. Uma boa compreensão de nós mesmos, uma ampla consciência de si mesmo, a simples prática de um exercício físico que nos leve a explorar o nosso corpo ou a prática da arte de o embelezar, assim como a análise dos nossos processos psíquicos e da nossa relação com os demais (são apenas alguns exemplos), levam a uma apreensão mais rápida das realidades seguintes; mais rápida e mais eficaz. Se eu me compreender bem, tendo a compreender melhor os outros. É como se ao trabalhar a compreensão de mim mesma, eu estivesse a criar superfícies de encaixe para novas realidades e quando elas me surgissem, eu as conseguisse apreender melhor e mais rapidamente. Enfim, tirar delas mais proveito, aprender mais com menos. Isto para dizer que o "pecado", e por pecado eu entendo toda a atitude susceptível de nos vir a trazer sofrimento (o que inclui trazer dor aos demais, uma vez que essa dor acaba por se virar contra nós), não consiste em algo estanque; dizer que fazer isto ou fazer aquilo é pecado, é, quanto a mim, a maioria das vezes, uma grande asneira. Tudo depende de quem faz, da consciência de si que possui, de como o faz e do motivo pelo qual o faz. A fraca consciência de si e motivações não generosas podem fazer com que o mais bem intencionado dos actos se torne no maior dos pecados. E vice-versa. O que torna uma acção num pecado é o grau de consciência, e consequentemente o nível de inconsciência, com que é realizado. Quanto mais ignorância subjaz aos nossos actos, mais susceptíveis eles se tornam de se transformar em pecados. Mesmo que sejam aparentemente beneméritos e bem intencionados.


É por isso que nenhum prazer nos é negado; se tivermos muita consciência de nós mesmos, se tivermos boas fundações, certamente aguentaremos um grande prazer, sem que isso nos venha a trazer necessariamente problemas. Curiosamente, um grande prazer, pode funcionar da mesma forma que uma grande provação, e é por isso que um se pode facilmente converter no outro. Assim, se fortes fundações nos tornam mais resistentes às grandes provações, e se podem dissolver uma grande provação, tornando-a simplesmente num acontecimento sem grande expressão, ou até e de forma ainda mais desejável, numa oportunidade, essas mesmas fortes fundações podem sustentar que se tenha um grande prazer durante um período de tempo mais alargado. Que esse grande prazer se torne até algo que pertença à nossa noção de normalidade (o que não significa perder a noção do bem que temos e que lá por ele fazer parte do quotidiano e estar presente todos os dias, deixemos de nos sentir gratos e valorizar). Uma fraca consciência de nós mesmos pode levar a que, face a um acontecimento muito bom na nossa existência, este não seja devidamente aproveitado, levando a abusos e à arrogância. E estas atitudes levam a que, mais tarde ou mais cedo, acabemos por perder aquilo que de bom nos havia sido emprestado.

Uma atitude com base na temperança tende a levar a que não tenhamos mais do que aquilo com que conseguimos lidar. E isso pode ser bom e pode ser menos bom. É bom porque nos deixa menos susceptíveis ao sofrimento; é menos bom, porque podemos perder a perspectiva de que existem realidades melhores do que aquela que vivenciamos, pois tendemos a sonhar e a desejar menos; logo, tendemos a caminhar menos. Por isso mesmo a temperança deve ser encarada não como uma forma de estar; mas como uma virtude à qual nos podemos recolher sempre que o tumulto da caminhada nos tira do eixo e que sentimos estar a perder essa capacidade de tirar o devido proveito do que nos é apresentado. Ela abre caminho ao silenciar dos tumultos, ao silêncio interior e à análise cuidada, por isso é tão essencial. É essa mesma análise, de forte base racional, mas tendo sempre que levar em conta os sentimentos associados a cada ideia, é essa percepção equilibrada das diversas variáveis em questão, que levam a uma equilibrada associação de ideias e, consequentemente, a uma decisão ajustada à realidade que nos é apresentada. Isto acaba por levar, por sua vez, àquilo que muitas religiões gostam de fazer parecer algo trancendental: o que muitos chamam o controlo dos instintos. Na verdade, não é um "controlo" na acepção forçada e quase violenta que habitualmente temos dessa palavra. Não se trata de usar da força bruta, mas sim da inteligência. Trata-se simplesmente de uma análise eficaz das variáveis, suficientemente consciente, que nos leve a perceber exactamente o porquê desses instintos surgirem no nosso espírito, assim como a forma mais adequada de os aproveitar. E a melhor forma de aproveitar os instintos, não é, certamente, negando-os ou reprimindo-os, mas desmontando-os, através da sua compreensão. Porque é que eu tenho tanta necessidade de comprar trapos? Será que devo comprar mais este? Uma reflexão mais aprofundada diz-me que possuo uma faceta profundamente criativa bastante atrofiada em mim e que possui uma necessidade premente de se manifestar, levando por vezes a certos desequilíbrios, que, deixando o tempo passar se verifica não serem, na verdade, propriamente desequilíbrios. Sinto o mesmo em relação à minha profissão e à impossibilidade de a realizar com criatividade. Por isso necessito tanto de liberdade. Combinar trapos é uma forma muito interessante de expandir essa mesma criatividade; é necessária, pois, por princípio, vestimo-nos todos os dias ou quase. Então, já que o temos de fazer, sempre que possível façamo-lo criativamente. Além disso, para mim, é também uma forma de explorar cores, padrões, desenvolver a noção de estética, e até de ganhar consciência do meu próprio corpo. Agora vejamos, o que nos diz o "outro" prato da balança: é preciso dinheiro, é preciso espaço, é preciso tempo, disponibilidade mental; além disso, os tecidos são objectos dificilmente recicláveis, quer por nós, quer pelo próprio planeta. Esta última variável deixa, contudo, facilmente de se constituir como um limite se tivermos em conta que possuo gostos pouco variáveis e que preservo as mesmas peças de roupa durante muitos anos; o que por outro lado, leva a um desafio positivo: como continuar a vestir as mesmas peças de roupa, mas de forma a reflectirem a minha identidade actual? É, de facto, um desafio. É também um desafio transformar uma peça de roupa, quer combinando-a, quer alterando-a, por forma, mais uma vez, a reflectir a nossa identidade. É um excelente meio de conseguirmos consciência de nós mesmos e não só. Além disso, é um importante veículo de socialização (infelizmente, por um lado, felizmente por outro); é um meio adicional (já que fazê-lo simplesmente através do formato do próprio corpo, proporções, enfim, se poderia tornar algo pobre, uma vez que não possuímos grande intervenção consciente nessas mesmas características) para transmitirmos mensagens a nosso respeito aos demais. É, para mim, um desafio conseguir progressivamente um estilo de vestir que transmita com maior e maior fidelidade a minha própria identidade. Que ajude a tornar aos demais mais óbvio quem eu sou, que reflicta o máximo de facetas minhas, que nenhuma delas fique esquecida. Claro que se tiver pouco dinheiro, ou pouco tempo, ou não andar com disposição nem vontade para pensar em roupas, não devo adquiri-las. Pode parecer um enorme desperdício de tempo estar a dedicar tanta atenção a um assunto que poderia resolver-se facilmente se enfiasse o primeiro trapo que me aparecesse à mão. Mas neste mundo, as coisas foram feitas para ser simples, mas não fáceis. É muitas vezes através da exploração de pequenas coisas que verifiquemos ser-nos relativamente acessíveis, que conseguimos suporte para outras mais importantes. É com base nesta análise que posso decidir "controlar" a minha acção comprando ou não comprando. E é a virtude da temperança que me leva a reflectir e analisar antes de agir. É ela que me ajuda a moderar o "instinto" de adquirir mais um trapo.

Esse instinto e os outros todos. Uma vez disse a uma amiga que não somos directamente responsáveis pelos "instintos" com os quais somos confrontados pelo nosso espírito, mas que somos pelo menos mais responsáveis pelas decisões que tomamos sobre esses mesmos "instintos".